
O dia era morno, daqueles que o ar nem é sentido e a temperatura parece ceder a qualquer alegria, ou é frio ou é calor, mas não... Era morno para mim, sempre seria! Não gostava de tempos nublados, parecia que o dia estaria destinado a estar apagado e sem graça. E neste dia de inverno qual eu não teria direito a trovões e raios, afinal, duvido muito que se quer uma gota caísse do céu, e olhando para este, passou a manhã, onde discursos de História do Brasil e Geografia cartográfica passaram do mesmo modo que todo o resto, sem graça. Mesmo que me falassem de revoluções e mapas ingleses, pouco importava, o dia estava predestinado a ter risquinhos na mesa com mais atenção de minha parte do que a matéria lida. Certo, talvez caísse no vestibular, mas quem conseguiria prestar atenção em algo em um dia como este?
Sabia que eu não, e assim dedilhando os dedos sobre a carteira finalmente escuto o sinal, me preparou para sair, porém em ritmo lento, o resto do dia seria de igual monotonia que não merecia tanta euforia como os de outros alunos que observo.
Jogo a bolsa roxa com zíper verde limão para trás, nem ela parecia ter uma cor excepcional naquela manhã, talvez mudasse para uma rosa choque ou quem sabe laranja? E assim, foram-se formando os pensamentos até minha casa, era certo, aquilo não estava com cara de voltas as aulas, estava? Cadê, toda aquela saudade dos amigos, noticias para contar? Mas não, naquele dia todos estavam mais interessados em dormir, não os culpava, também faria isto, mas parece que como culpa de um dia sem grandes euforias, nem se quer o sono me era permitido, coisas equilibradas demais... Sempre odiei tanto isto!
Para minha nada surpresa, o almoço não estava nem insosso nem salgado, e certamente também não causava grandes emoções. Se o dia, como eu realmente achava estivesse por fim do mesmo modo de agora, compraria chocolates, não era possível que eles não causassem nada!
Os minutos passaram, tinha que pegar o ônibus, trabalhar... Sim, erros da vida, a infância passa rápido e então como preparação dos erros, vem a idade quase adulta, a dita adolescência, onde alegam ter descobertas sendo portanto a melhor época da vida. Sei que acharei isto quando crescer, ou até mesmo amanhã, se o céu me proporcionar dias com mais sensibilidade de vida, mas por hoje ouso discordar com a certeza de um filosofo.
O caminho até o ponto é rápido, onde tenho certeza que minha atenção talvez estivesse nos formatos dos paralelepípedos da rua, ou nos bancos acinzentados qual pareciam totalmente proporcionais ao dia, mas não poderia confirmar com certeza, era pensamentos rápidos e sem graças demais.
Vi então o automóvel se aproximar, incrivelmente, nada de lotações, ele estava nem cheio nem vazio, aqueles que parecem ter lugares exatos para todos se sentarem e não causarem nenhum nervoso ou alegria, apenas aceitável, afinal realmente era assim para ser, mas não estamos acostumados com “era para ser assim” e certamente um ou dois sorrisos surpresos seriam encontrados, mas não o meu, este parecia estar do mesmo modo, com um ar sereno e sem pensamentos, típico defeito de pessoas aluadas, mas nem isto talvez eu aparentasse.
Passei a catraca e vi os lugares, como suposto mais três, e incrivelmente duas pessoas atrás de mim, irônico não? Não, não seria! Ironia é algo que não combinaria com estes dias, dias “cheio de não-ironias”.
Escolhi mentalmente um banco qualquer, abro a bolsa e vejo o MP3, coloco o fone no ouvido e vejo as paisagens, cinzas... Alguma surpresa?
Sim, teria, já que logo depois, ao encarar meu companheiro, constato que era comum encontrá-lo todos os dias por ali, onde no máximo dávamos sorrisos de boa tarde, típicos como beber água, e voltávamos nossa atenção a coisas sem importância como o capitulo da novela que nunca assistimos.
Mas naquele dia sem surpresas e intensas sensações, ele apenas levantou os olhos, eram cinzas, tão cinzas quanto o dia, mas incrivelmente não me deram sensações de náuseas como tudo até agora, pelo contrário, foram um portal para o sorriso dele que em falas simples me indicou o céu, naquele timbre normal já acostumado a mim pelos cumprimentos, mas naquele dia com intenso destaque.
Dizia para ver o céu em vez ao cinza das estradas, sim concordávamos, afinal o cinza do chão poderia ser sem graça e ainda por cima dar zonzeiras pela velocidade, mas não o céu, afinal, o céu que eu tanto desprezei pelo dia encarando apenas o cinza rotineiro, agora me dava sensações esquisitas ao lembrar da voz do garoto de cabelos castanhos... Tão normais, tão típicos... Mas tão diferentes naquele momento. E assim, ao ver que em conversas totalmente típicas e sem algum sentido completo, chegamos ao ponto final, ambos descemos, mas desta vez, ao contrário de todos os dias e talvez uma surpresa em um dia sem surpresas, foi ele se virar com os mesmos olhos e se direcionar a mim.
_Até amanhã...
Que pouco importasse os dias sem graças, certamente, mesmo com todas as provas acinzentadas, aquele não era um desses dias.