Cravo e Jasmim - Final
Casaram-se na tal cerimônia de setenta e três pessoas em uma tarde amena no meio da semana, não tão plenamente aceita pelos Lacorte, mas o que poderiam fazer? Esperar pelo próximo escândalo protagonizado pela filha e esperar o convento como resposta? Eis que o novo casamento contou e viveu as mais belas histórias de casais por um ano.
Mudaram-se para o sul de um pais tropical, uma chance de progresso a que tudo indicava.
A foto do porto fazia sorriso brotarem facilmente no rosto da nova senhora Cravo. Com Daniel ela era mesmo ela o tempo todo. Era no que bem ou mal a completava e mesmo assim, o que ambos esperavam. E a viagem seria um bom começo da vida de casados, da família nova que surgia.
A viagem de navio se realizou em uma noite estrelada, Fred e Rose desejavam que voltassem logo e os pais de Manuele que ela fosse de fato o que todos esperavam. Ela nunca seria. Era o que Daniel esperava, já era o suficiente.
Mas qualquer esperança, de que lado viesse, se partiu em um acidente. E assim, Daniel viu os olhos de Manuele se perderem no oceano, como se dali eles sempre tivessem sido parte.
Parece um final triste, eu sei, um ano de casamento feliz depois de anos de companheirismo acabados em um acidente trágico que se perde na memória entre tantos outros no oceano Atlântico, mas bom, certamente não foi um único ano de amor. Eles se amaram desde o primeiro garoto na janela e a menina de cabelo de fogo no quintal verde.
Se ele seguiu em frente? Não sei. Só sei que obviamente este não é o fim da história, afinal ela começou com “era uma vez” e só existe um final para este tipo de história, sendo assim, onde quer que eles estejam, só resta a eles esperar!
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Cravo e Jasmim - Parte 4
Facilmente adoeceu no mês seguinte, o pai estava mais presente, e com o novo trabalho, Daniel estava ocupado. Com a mesma leveza de uma pena se apresentou a um grande evento, o primeiro pretendente apareceu.
Apesar da pele mais pálida que o comum, Manuele tinha vida. Não havia muitos homens que aceitassem isto tão positivamente, e com seu jeito ela simplesmente deixou-se sorrir. Era um sorriso normal e cortes.
Daniel que havia perdido a apresentação por estar no escritório, apenas sentiu o estomago desabar com aquele gesto receptivo, confessou ele alguns anos depois.
Mas não foi o homem do evento que a tornou por esposa diante de setenta e três convidados em uma tarde de outono. Ele, como tantos outros, receberam respostas negativas, escapadas efusivas e discursos tão politizados que deixaram claro a eles a dor de cabeça que teriam caso a quisessem para si.
No entanto, houve mártires. Um deles quase a agradou, tinha porte de anti-herói e tom de aventureiro. Mas, a apresentação da primeira namorada de Daniel, semanas depois, fez que tudo se modificasse. A relação não era a mesma, os comentários chegavam a todos, mas nada se podia fazer. A tal moça, obviamente loira e educada, sumiu alguns dias depois da viagem inesperada de Manuele.
_Onde ela foi?
_Por quê? Acaso se importa?
Perguntou uma Rose de rugas aos olhos enquanto fitava o homem que o filho havia se tornado.
_Sabes muito bem que sim, minha mãe. Ela é minha melhor amiga, sempre me importarei.
_Que bom que se lembrou – provocou a irmã que em seu ar angelicalmente sagaz também lhe lembrava o dela. Sentia saudades. – espero que o novo pretendente não se importe contigo. Depois de te-la abandonado, talvez não se oponha mais ao marido.
As palavras tinham um gosto amargo. Nunca havia abandonado Manuele, ela que depois daquele bad-boy de ternos bem cortados que havia sumido e agora viajado sem qualquer aviso.
Não sei se algum deles estava certo. Só sei que ela sentiu saudades e com olhos do mesmo menino da janela ele percebeu o quanto ela lhe fazia falta também, enquanto via-a chegar a casa dias depois.
_Onde esteve?
No mesmo dia ele se colocou no jardim a sua busca. Estudava direito ali mesmo na cidade, não havia dinheiro para viagens e supérfluos, não sabia por que, mas pensava nisto quando a viu ali sozinha.
_Você notou que eu fui? Fico surpresa agora!
Havia o mesmo fogo da menina de seis anos nos cabelos, mas ela estava diferente. Permitiu-se ver tal diferença e corou perante diagnósticos nada lógicos.
_Não vai me dizer?
Insistiu com o olhar sério.
_E se eu não quiser?
_E se eu pedir por favor?
A risada e o baixar de olhos. O mar havia batido na ressaca naquele simples gesto.
_Fui à escola de dança em Nápoles, qual me convidaram para uma apresentação. Papai disse que faria bem sair da cidade, então me deixou ir à companhia de irmã Adelaide. Dizia estar preocupado, besteira.
_Você parece gostar disso?
-Me faz acreditar que tenho família. Que tenho alguém real fora da dança. É, desculpe-me, mas realmente gosto disso!
Ele não gostou disso e quis contrariar com palavras, achou melhor não. Gestos e ações eram mais eficazes. Seriam mais dois meses até que ela o abraçasse como fazia sua antiga Manuele, e quando ela o fez a dúvida sumiu como se tudo fosse óbvio demais desde o início.
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Cravo e Jasmim - Parte 3
Como se nada houvesse acontecido, eles voltaram a conversas em uma tarde destas e se perdiam amigavelmente m discussões triviais de quem deveria pedir a mãe de Manuele para que ambos fossem ao cinema na semana seguinte. Constatou-se que seria ela mesma. Sua mãe não gosta de mim, alegou corretamente um Daniel a seu favor. Mas ela permitiu, realmente não se importava, ou se importava era apenas com o que o marido poderia dizer, ao que se estabeleceu que deveriam voltar antes que ele voltasse do trabalho.
Dito e feito, Fred e Rose o deixaram antes que o sol se quer pensasse em se por e aos poucos um novo habito se formava.
Aos quinze anos ela já ia sozinha. Às vezes, na volta da escola de dança se pegava olhando os cartazes de filmes que tão repetidamente passavam nas sessões.
Ao passar dos anos as brincadeiras haviam mudado, as conversas evoluído e as visões se unificando. Porém, para os pais de Manuele as histórias passavam do limite, e o certo era o certo, somente o perfeito importava.
Na festa de debutante a intenção de um casamento com um comerciante bom de vida foi mencionado, naquela mesma madrugada uma expressão séria instalou-se no rosto de menino de Daniel.
_Não podem te obrigar a casa. És muito nova,
_Muitas casam na minha idade.
_Mas nem o conhece!
_Sua mãe também não conhecia seu pai.
Eram palavras para convencê-la a si mesmo, sabia muito bem ela, mas talvez se todos acreditassem, se seu Daniel acreditasse, ela também poderia e assim, um dia, se tornaria verdade.
_Sempre te imaginei a frente deste tempo. Escandalizando a todos e até a mim, fazendo suas escolhas como sempre fez, dançando em uma escola que você mesmo fundaria e viajando por onde sempre sua imaginação te levou.
_Gosto da tua imaginação, isto sim. Gosto mesmo!
Era aquele olhar que ele nunca saberia expressar com palavras o que significava. Era um elo que a salvava de pesadelos; nem sempre o mundo havia sido bom, isto ele tinha certeza, e era injusto para ele que alguém como ela, que tanto tinha sentimentos para dar e ensinar, tivesse tão poucos a serem privilegiados, que o quisessem ser.
Sua casa era vaziam por isto havia estado sempre na dele. Na verdade, da casa mal assombrada que ela via antes dos seis anos ao lado da sua, era agora o lugar onde seu anjo havia estado.
_E se seu futuro marido não deixar você me ver?
O sorriso novamente surgiu, o único.
_Eu fujo. Talvez escandalize como você quer e peço abrigo a teus pais. Será que Fred e Rose se importariam?
Não eram pelas perolas, ou pelos cabelos presos mostrando o colo remendado de sardas, mas ele via finalmente a tal lady. E ela amou aquele olhar.
Devaneios de Kamila Silva às 17:31 0 Comentários
Cravo e Jasmim - Parte 2
Aos oito anos Daniel já era seu melhor amigo, um confidente e um companheiro quando ela precisava. Ao nove foi ele que insistiu para ela não fazer bico ao ir para a aula de dança em vez da de pintura, onde seu professor antigo havia viajado, e descobrir a única coisa, que fora Daniel e Jack, a fazia enxergar além do premeditado.
_É como voar.
Rodou entre o gramado.
_Só que de sapatilhas e roupas estranhas.
Constatou ele, rindo em cima das escadas do porta dianteira da casa branca. Fred e Rose ouviam o barulho deles dentro da casa, temiam acordar Janaina que perante esta época não passava de um bebe dorminhoco.
_Por que não vão brincar de algo mais silencioso?
Não daria certo. A não ser que colocassem um livro na frente de Daniel com algo que realmente valesse a pena, ele não ficaria quieto. Tinha um mundo a descobrir; que bem o silêncio traria? Horas de sono aos seus pais, justificaria Manuele com a boa sensatez que, raramente, aparecia. Aprendera a admirar aquela família de uma maneira que poucos entendiam, muito menos os ilustres membros das classes superiores. O fato é que os Cravo apenas viviam a sua maneira, às vezes brigavam, às vezes riam, nem sempre foram felizes o tempo todo, mas, certamente, mais do que Manuele jamais desejou para si.
_Quero algo assim!
Disse ela sem cerimônias a um Daniel já com seus doze anos em uma tarde de verão.
As sardas já lhe cobriam a pele branca do rosto e abaixo do pó aplicado, ele tentava contar as pintinhas insistentes. Jurava serem dez.
_Hei, você ouviu o que eu disse?
_Claro, como sempre você quer algo.
O bordado bem feito, facilmente, voou até o tronco dele. Um olhar aparentemente zangado dele e pronto, a risada dela já preenchia o ambiente.
_Isto não é atitude para uma dama, Manuele Lacorte.
_Como se atitudes para garotos fossem ignorar o que uma lady diz.
_Tem que crescer mais até ser uma lady.
Pronto, a risada havia sumido. A impressão era que o fogo queimava. E assim, em vez de passatempos com garotos da escola e infinitas horas no mundo mágico da imaginação de Manuele, o fim daquele verão, intermináveis dias, foram de novos amigos, bola jogada na rua, jogos de tabuleiros na casa de John e cartas com corpos femininos desenhados, apresentados tão cordialmente aos novos jovens por Jack.
Devaneios de Kamila Silva às 17:30 0 Comentários
Cravo e Jasmim - Parte 1
Era uma vez uma garota de cabelos de fogo e sorriso de esperança que se chamava Manuele, ela era única, afirmava Daniel aos seis anos. Tentei inúmeras vezes que ele por fim completasse a frase, era Manuele única em que? Ele, porém, nada respondia. Apenas a olhou de sua janela assim que chegou naquela nova cidade e se encantou com a nova vizinha, de um modo que não era natural em crianças dessa idade. Afinal, meninas enchem a paciência, não é? E garotos sabem ser tão nojentos! Como podem dois seres tão diferentes se unirem? Mas não, algo conspirava, como só em histórias de “era uma vez” acontece, e deste jeito, a curiosidade assolou naqueles olhos verdes como o mar ao avistarem barulhos na casa ao lado. Os novos vizinhos; ‘papai disse para não aborrecê-los’. Mas em seu mundo particular as idéias não se deteriam unicamente por avisos de disciplina. Nunca havia gostado das aulas de etiqueta mesmo.
_Olá garotinha, como se chama?
Ele era alto e tinha um chapéu estranho, constatou Manuele de inicio avistando-o de seu jardim. Era uma menina de vestido branco parada como estatua em sorriso vergonhoso na frente de Fred Cravo naquela manhã.
_São os novos visinhos?
A pergunta parece ridícula posta desta maneira, certamente os pais de Manuele achariam, mas não o Senhor Cravo, este apenas acenou positivamente confirmando a dedução dela. Ele era bom.
_Hei Daniel, venha conhecer a nossa nova vizinha. Deve ter mais ou menos a tua idade – seguiu a direção onde o homem de chapéu olhava e encontrou a janela de vidro, que lhe antes parecia mal assombrada, mas que agora mostrava um garoto de olhos riscados e cachos desproporcionais. Ele sorriu, um sorriso de quem via mais do que se pode ver. Ao fechar os olhos consigo ver cada expressão, traço, marca que aquele inocente sorriso causou na menina criada para boas maneiras.
_Manuele, o que faz ai fora?
A voz austera de sua mãe a lembrava da contravenção das ordens do pai. Era inaceitável, e a cor que fugiu de sua face apenas alertou algo dentro de Rose Cravo, que a pequenina no jardim com seu marido e nos olhos de seu filho, era apenas o início de algo bem maior. Em risos jovens, Janaina, a filha mais nova dos Cravo, que nem havia nascido nesta época, alegaria que foram as previsões de bruxa da mãe. Não sei se Rose havia estudado magia, só sei que ela estava certa.
_Vem quando quiser, criança.
E ela foi. Foi dias depois e em todos conseguintes. Às vezes, às escondidas, outras na boa vizinhança, só é certo que desde que eles haviam mudado, também acrescentaram algo na vida de tons pastéis de Manuele, algo como um laranja ou verde bem pintado.
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Monstro de lata
8 de abril de 2010
Pulo o buraco do canto esquerdo da calçada, cruzo a rua em seguida e pulo a poça de água parada desde o temporal de ante ontem. O ar deprimente ainda embala a todos, como se um cinza subumano pisasse em todos e os obrigasse a esconder as expressões, as vezes, no mínimo, expressivas. Procuro os passes na bagagem, em um mundo secreto das bolsas femininas não encontro nada, apenas uma fila disforme na frente do monstro de lata.As ações são corriqueiras e fáceis de processar, as mesmas desde tão pouco que já são uma eternidade. Deslizo impaciente até a porta, pessoas cortam a fila e quando eu simplesmente deixo a senhora de cabelos e alma branca passar na minha frente me olham desagradados. Suspiro, cordialidade me surpreenderia.
Assim, como em um passe mágico de leitura mental as sete da manhã, um senhor se levanta na minha frente. “Sente-se senhora”, ela recusa e ele insiste. O primeiro sorriso do dia cinza é posto nos lábios dela, as sacolas deveriam realmente estar pesadas.
Fito o lado de fora, como prometido, surpreendida. Embalo ao som do aparelho pequeno na mão, qual nos últimos anos faz tudo; sigo as paisagens disformes, e como um tudo, aparentemente sem vida. Aparentemente. Há pessoas lá fora, inexpressivas, cinzas, apressadas, mas pessoas.
Volto para o ambiente apertado, um garoto me olha. Não tem nem mesmo cinco anos, percebo por seus olhos, são inocentemente infantis. Sorriu, a mãe gosta do gesto, envaidecida, foi ela que o fez. Esta feliz por isto, mesmo ali, com contas na mão e a responsabilidade de deixa-lo na creche antes que a patroa acorde. Sorriu mais uma vez, desta sem a percepção do garoto que continua me olhar e depois para os pés, os sapatos estão desamarrados. Não importa, constata ele, que decide ver as pessoas do ponto seguinte que começam a entrar.
Sons cansados são emitidos pela maioria, o homem de preto – totalmente de preto na pele branca demais – se destaca ao se levantar para uma senhora. Surpresa, ela não deveria julgar tantos os jovens de hoje em dia. Nem mesmo os que usam esmalte, ri secretamente para si. Amanhã ela se esquecerá disto, mas hoje é digno lembrar.
A enfermeira, antes sentada três bancos a frente, se levanta também; o senhor se recusa. Certamente ela ficou de pé tempo demais, antes disso. Mas ele também, setenta e poucos anos de pé, é bastante tempos.
Alguns descem nos pontos a frente e outras conversas baixas são ouvidas enquanto os freios subitamente são puxados. Carros malucos do lado de fora, exalta o motorista, responsável por sessenta e poucas vidas dentro do mostro de lata.
A moça de branco detalha sobre a senhora encontrada em um acidente na véspera, perdeu uma perna, chorou junto com ela. O pedreiro descarta a mochila pesada das costas e a coloca no chão, a menina queria passar, uma estudante que se surpreendi com a colocação avantajada na universidade desejada.
Cinco jovens descem no posto de gasolina, há mais quatro quarteirões para andar depois dali, talvez um refrigerante e risadas os ajudem a chegar lá. Ou talvez, a mulher de seios fartos o encontre antes. Sorrisos companheiros serão trocados, são homens, pensa ela envergonhada.
Mais dois pontos e eu descerei, mas antes, o menino. Onze anos, descobri semana passada. O pai, que não tem como o leva-lo na escola sem perder a hora faz o mesmo processo todos os dias; o leva até ali – uma arvore centenária na praça – e cumprimenta o motorista, é um acordo mudo de que ele ficara de olho no garoto até a penúltima parada, onde o menino desce. Sim, esta tudo certo por hoje, um beijo nos cabelos que já cresceram demais e o menino entra. Acena para o cobrador, o mesmo lhe dá a mão. Um gesto simples, não normal ali.
Um homem suspira resignado dois passos adiante, está atrasado, o patrão ranzinza não gosta disso. A perda do emprego significaria horas de trabalho extra e bicos forçados para conseguir sustentar a casa, ou a quase casa, que ele tem na comunidade distante dali. O patrão não entende isto em sua mansão de seis suítes desocupadas. Mas a mesma boa senhora que dei passagem sim, afinal, dá lugar para ele descer correndo em sua frente sem nada dizer, tem alma branca como pensei.
Levanto-me e vou até a porta, encaro alguns rostos, afinal, outros indivíduos passam para mim despercebidos, um pecado. Em seu silêncio pensam raridades e histórias para mim tão coloridas que quando desço dali a cinco minutos apenas cogito, são humanamente humanos, agradeço. Ai, de repente, mesmo com um caminho de ladrilhos cinzas e pessoas inexpressivas iguais e tão diferentes as outras vistas, cogito cores. Nada de cinza no meu mostro de lata.
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Papel no cesto.
7 de abril de 2010
Tinha que mudar o que eu, propositalmente, mostrava ser; afinal, isto já não me bastava. Criei formulas inexistentes do que poderia ter sido, mas já, de um todo, não importa mais. Afinal, futurologia do passado basta os sonhos que de madrugada não posso controlar. E bom, o colegial acabou, sai do jogo de interpretações de mascaras reais, ilesa. Ou quase isto. Talvez nada disto.
Sei que acordo cedo, tomo um cereal de péssimo gosto para que a consciência agüente o fracasso de se importar com a opinião alheia do desconhecido na rua, trabalho no automático em uma empresa de números e contas borrados pelo governo e usurpadas pelo mesmo, mas isto não me preenche a cabeça vazia de caraminholas e, assim, risco palavras no papel. Sou escritora de ficções mentais e suspiros, também eles e elas me escapam no resto do dia, assim como você.
No final, não espero que apareça hoje, nem mesmo a esperança, vou destruí-la de uma vez por todas com fogo e gelo, e talvez lágrimas secas. Caso-me comigo mesmo neste dia, e esteja claro, a quem quiser ouvir e também a quem não quer, vou tentar ser feliz. Talvez, acreditem só, eu até consiga. Caso não, peço desquite.
Ora, ora, não faz qualquer sentido isto, mas tudo bem, não precisava fazer mesmo. Deixo o café sobre a mesa e me levanto. Pego e jogo fora o papel como uma bolinha no cesto ao lado, ele é prateado e vazio, não tem porque guarda-lo, o papel. Afinal, querendo ou não, basicamente e certamente não, só queria mesmo era escrever. O resto, sempre, é só isto, resto.
Devaneios de Kamila Silva às 11:49 0 Comentários



