24 de abril de 2010
Era uma vez uma garota de cabelos de fogo e sorriso de esperança que se chamava Manuele, ela era única, afirmava Daniel aos seis anos. Tentei inúmeras vezes que ele por fim completasse a frase, era Manuele única em que? Ele, porém, nada respondia. Apenas a olhou de sua janela assim que chegou naquela nova cidade e se encantou com a nova vizinha, de um modo que não era natural em crianças dessa idade. Afinal, meninas enchem a paciência, não é? E garotos sabem ser tão nojentos! Como podem dois seres tão diferentes se unirem? Mas não, algo conspirava, como só em histórias de “era uma vez” acontece, e deste jeito, a curiosidade assolou naqueles olhos verdes como o mar ao avistarem barulhos na casa ao lado. Os novos vizinhos; ‘papai disse para não aborrecê-los’. Mas em seu mundo particular as idéias não se deteriam unicamente por avisos de disciplina. Nunca havia gostado das aulas de etiqueta mesmo.
_Olá garotinha, como se chama?
Ele era alto e tinha um chapéu estranho, constatou Manuele de inicio avistando-o de seu jardim. Era uma menina de vestido branco parada como estatua em sorriso vergonhoso na frente de Fred Cravo naquela manhã.
_São os novos visinhos?
A pergunta parece ridícula posta desta maneira, certamente os pais de Manuele achariam, mas não o Senhor Cravo, este apenas acenou positivamente confirmando a dedução dela. Ele era bom.
_Hei Daniel, venha conhecer a nossa nova vizinha. Deve ter mais ou menos a tua idade – seguiu a direção onde o homem de chapéu olhava e encontrou a janela de vidro, que lhe antes parecia mal assombrada, mas que agora mostrava um garoto de olhos riscados e cachos desproporcionais. Ele sorriu, um sorriso de quem via mais do que se pode ver. Ao fechar os olhos consigo ver cada expressão, traço, marca que aquele inocente sorriso causou na menina criada para boas maneiras.
_Manuele, o que faz ai fora?
A voz austera de sua mãe a lembrava da contravenção das ordens do pai. Era inaceitável, e a cor que fugiu de sua face apenas alertou algo dentro de Rose Cravo, que a pequenina no jardim com seu marido e nos olhos de seu filho, era apenas o início de algo bem maior. Em risos jovens, Janaina, a filha mais nova dos Cravo, que nem havia nascido nesta época, alegaria que foram as previsões de bruxa da mãe. Não sei se Rose havia estudado magia, só sei que ela estava certa.
_Vem quando quiser, criança.
E ela foi. Foi dias depois e em todos conseguintes. Às vezes, às escondidas, outras na boa vizinhança, só é certo que desde que eles haviam mudado, também acrescentaram algo na vida de tons pastéis de Manuele, algo como um laranja ou verde bem pintado.
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