segundo erro

2 de outubro de 2022

Já faz o triplo da idade que tinha quando tudo começou. A menina de 10 anos completamente sozinha ainda está deitada na cama achando que a solidão e o abandono é a única coisa que vai conhecer na vida. De um conto de fadas que ela achava fazer parte se viu só com a realidade de repente. A realidade tem doença, tem separação, tem ela escutando no recreio sobre a separação dos pais de outra pessoa. O que essas pessoas achariam se soubesse que os dela também se separaram? Essa cena as vezes repassa na minha mente ao acaso. As pessoas dizem dos outros. Não quero que falem sobre mim. Carregar um corpo grande já é peso demais.

Surpresa, a doença bateu a porta. Todos falam que é psicológico. Mas dói. Eu já nem sei mais se o que eu senti era real ou não. Não tenho a menor ideia pois para me proteger eu criei outro mundo.
Primeiro foram histórias de outros. Descobrir os livros me manteve viva. Descobrir que poderia criar histórias me deu forças para se desconectar do meu espaço e ir para ele.
Ali eu tinha controle.
Minha saúde enfim melhorou, mas eu estava sozinha na sociedade.  Dois anos e muito tempo. O mundo real é um lugar perigoso. Eu de novo no real. Completamente sozinha achando que algo errado era comigo. Eu tinha culpa de não ter controle. Eu vi demônios demais. Era o corpo errado, a saúde errada, as pessoas erradas. Eu já sentia como uma boneca quebrada. 
Mas há outras escolas, outros cenários. De repente eram cenários. Disassociar me mantém no controle.
Eu conheci pessoas reais, mas minha segurança pessoal é frágil, não me acho boa o suficiente para estar com eles. Então, de repente, a Internet. Há pessoas que criam histórias como eu. Há pessoas lá fora que vêem livros e perguntam "e se?" e escrevem sobre isso. Há pessoas por trás desses personagens que também têm histórias. Eu quero histórias. Preciso de histórias. Não sou nada sem elas.
O problema foi perceber que só os personagens não abasteciam a solidão. As conexões com esses iguais, os autores das marionetes, era bem mais complexos e satisfatórios. Eu não sou suficiente. Mas os personagens podem ser. Eles são interessantes, eles tem enredo, eles não são abandonados.
Mas ele ferem. E aquilo virou grande demais. E aquilo ainda dói. Dói porque eu aprendi que sempre precisamos nos redimir. Dói porque tudo que aprendi foi a me culpar por cada segundo da minha existência. Dói porque eu nunca consegui pedir desculpas e reparar o mal que fiz.
Eu não sei o peso que esses fantasmas criaram nessa vidas que eu toquei. Eu sei o peso que eu levo a mais de 15 anos por isso. Eu não tenho justificativa para a garota sozinha que achou assim uma companhia. Porque solidão não é desculpa para você brincar com vidas alheias.
Eu continuo sozinha agora. Não consigo me aproximar de pessoas e nem me afastar de outras. Levo comigo alguns fantasmas. 3 garotos que nem lembro mais o nome. Lembro do rosto de quem conheceu eles no entanto. Lembro de sentir a mágoa direcionada para mim e entender. Lembro de querer pedir perdão, mas temer a represália. Não tangível, mas a solidão. Senti a solidão do mesmo jeito. 
Hoje carrego a mea culpa como um peso extra que as vezes sussurra no meu ouvido.  Tampar as orelhas no entanto é ineficaz.  Mas se eu me desfazer do peso e do barulho também parece errado, porque eu não corrigi, não reparei, não me desculpei. Mas é errado tocar nesse assunto também. Revisar as dores de quem toquei pode ser pior e aliviar minha consciência parece muito pouco resultado ante tocar nas feridas dos outros e eles sangrarem de novo. Eles não tem que sangrar para eu me sentir melhor.
Eu só quero colocar essa mala no chão. Apenas alguns segundos. Quero perdoar a criança que fez tudo que fez. Quero dizer para ela que esse segundo erro da vida não pode ser corrigido. Não pode ser reparado. O tempo não volta e por mais que eu queira muito, mais que muita coisa, não ter errado, já foi. E agora quero, já que não posso e não devo pedir desculpas as almas que toquei, pedir desculpas a essa menina que carrega esse e outros pesos desde então. Está pesado, coloque um pouco no chão. Esse peso não vai sumir, mas vezes ou outra ele só camufla nos outros pesos da bagagem. Outras ele berra forte. Você não tem que lidar sozinha com esses pesos desses erros. Marque ele, entenda ele, não cometa eles de novo, mas deixe o maior peso dele para trás. Você consegue? Consegue desapegar dos seus erros da mesma forma que desapegou de si mesmo por tanto tempo?

 
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