27 de fevereiro de 2023

Aprendi faz pouco tempo a começar a separar o que é dos nossos pais e o que é nosso, que não somos responsáveis pelas decisões e vida que eles levam. Foram 31 anos para aprender isso. Foram 31 anos se desiludido e amando essas pessoas tão humanas quanto jamais me permiti ser.

Meu pai me deixou essa semana. Mais uma vez. Dessa vez sem volta.
É difícil pensar sobre o assunto. É difícil por em palavras o que parece que a mente anestesiada as vezes embarca na disassociação, as vezes se joga de cabeça no precipício da piedade. 
Quero recordar os bons momentos. Quero lembrar do gosto da comida, da risada de dentes retos ou daquela quando ficava sem graça com algo. Quero lembrar da gratidão de ter construído e possibilitado o que temos e de que toda vez que eu começar a surtar você tão nervoso quanto eu falar "não adianta se preocupar". De quando fechava os olhos encostado no sofá e deixava o sono vir. Que que estava sempre perfumado e cheirava a confianca. Quero lembrar da pessoa que nunca aceitou ficar onde não se sentia bem, onde não estava feliz. Mesmo que a primeira vez que tenha feito isso tenha sido conosco. Quero recordar dos raros abraços, das escassas declarações. Mas havia um café com leite todo dia as 16h. Frango diariamente no almoço porque era o que eu comia. E nos ultimos anos uma pergunta atenta esperando de fato minha opinião e mesmo relutando, e não admitindo, aceitando meu parecer. Quero recordar até daquela pergunta preocupada de que se eu tinha conseguido dormir no hospital enquanto você lutava pela vida. Porque por mais que não houvesse palavras e grandes demonstrações sua vida era cuidar dos outros e nunca se permitir ser cuidado e acredito que foi por isso que agora partiu.
Assim, quero perdoar qualquer mágoa ou vestígio de constrangimento que possa ter existido nesses muitos anos. Toda vez que não me senti suficiente ou que quis me mudar pra te agradar. Quero arrancar a fogo toda sensação de não ter sido perfeita  para ter feito você ficar quando era pequena, mesmo que nem eu mesma entendesse que sentia isso. De que não fui forte agora para pedir que ficasse a todo custo que eu aguentaria o tranco que viesse. Por ter deixado você ir e agora não saber lidar de novo com sua falta.
Aparentemente você quebrou o coração de 3 mulheres, haviam 3 viúvas no salão. Mas no decorrer dessas 3 décadas você quebrou e consertou meu coração tantas vezes.
Fui sua filha, mãe, secretária pessoal, faz tudo. Atenta a cada necessidade, a cada sentimento. Me afastando ou aproximando dependendo do contexto. Implorando atenção e as vezes a invisibilidade. 
De forma resumida pai, você foi um marido mediano, um pai maravilhoso e um avô excepcional. Mas além de qualquer título foi um homem inteligentissimo com pouco estudo e completa destreza. Um indivíduo rígido nos próprios conceitos morais e uma presença única com que te conhecia. Você brigou com tantos, mandou a merda outros tantos e todos eles choravam sua rápida partida. Você era justo e sem paciência. Você tentava melhorar e talvez ao conseguir tenha completado seu papel aqui.
Seu netos disseram que você agora é um estrelinha, o engraçado é que sempre realmente norteou minha vida.
Estou a um tempo tentando recordar quem sou eu de verdade e com você partindo a sensação é que estou sem bússola, mas que também posso ir para qualquer lugar. 
Implorei ao Santos e anjos de luz para te receberem, para te confortável e terem paciência contigo. Como sempre, estou preocupada se você vai se sentir bem, se vai estar feliz. Por favor fique bem, fique feliz. 
Eu te perdou por tudo pai, inclusive por me deixar agora. Eu sou grata pai, inclusive por ter voltado para mim uma vez e ter mostrado que eu não era o problema. Sou grata por bem mais coisas do que posso enumerar e por entender nesse segundo a possibilidade de continuar nessa vida sempre sendo sua filha, mesmo que não te vendo todo dia, mesmo não esperando seu aval, mesmo sendo só eu.



 
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