uma visita ao endócrino

29 de agosto de 2022

Meu pulso está acelerado. Sinto minha respiração pesada. Fui infernal o dia inteiro  impaciente e impiedosa. O número no visor me chama, não é um rosto conhecido que me recebe. Mas ele carrega consigo partes de todos os carrascos que eu já conheci.

Antes mesmo de eu passar pela porta eu já sinto o pavor me correr as veias.
O que te trás até aqui? Um discurso ensaiado na mente sem diálogo esbarra na mente desde que sabia que viria. Palavras soltas que sozinhas não se completam por não existirem até saírem de lábios alheios.
Na minha crença infantil eu busco por apoio. Busco por soluções. Busco por alguma diferença, uma surpresa e um ouvir.
Sem novidades tenho o mesmo procedimento. O mesmo anotar no papel com a rispidez de desfazer de qualquer argumento. 
Me fecho no exato segundo que me vejo novamente ali na frente de uma balança. Como em mitologias passadas balanças tem muito significado, para mim só foi uma medida berrante de quão errada estou. O quão culpada. O quão presa.
Discursos motivacionais e evoluções de aceitação caem por terra. Minha luta ainda arde na pele, mas naquele segundo a dor interna é muito pior. Fico surda a todo avanço, só vejo aqueles números cravarem a sentença.
Escuto mais uma vez que o preciso fazer. Anule seu desejo, vivência ou história. Mais um exame banal, mais uma falta de resposta, mais passos seguindo para fora.
Os batimentos vão voltando ao normal enquanto as lágrimas correm escondidas pelo vidro fumê.
Quem chora ali é a criança que escutou se ela ia estourar, se ela não sentia vergonha de estar daquele tamanho.
Aquela criança não chorou. Ela fingiu que nada a atingia. Hoje a mulher adulta é soterrada no simples olhar.
Amanhã eu revisto minha armadura e continuo em frente. Busco nova esperança, nova relação de aceitação e imploro um pingo de bem querer. Por hoje me deixe lamber feridas, sentir se essas lágrimas conseguem me tirar um pouco do peso. Não do corpo, visto na vitrine, mas da alma, esquecida no porão. 

6 corações

24 de agosto de 2022

Eu nunca acreditei no amor romântico. Sempre achei que era uma paixão fadada ao fracasso por sua rápida fluidez. Algo tão bem inventado nos contos de fada que fazia legiões de pessoas buscarem algo inalcançável. Tipo ser feliz 24 horas por dia. Ainda não acredito na felicidade perpétua.

Perdoe-me o ceticismo, é apenas uma voz de segurança instalada. Pessoas perfeccionistas tendem a evitar o erro, então, quando vêem outros errarem tendem a não seguir o mesmo caminho.  O que faltam frisar é o entendimento de que o erro dos outros são só deles, e as vezes nem são erros, só aprendizado.

Mas não acreditar não significa que ele não aconteça quando está distraído.

Elriolt era um personagem e no meio dos jogos de imaginação eu conheci sua cabeça. Tão heróico, amável e puro quanto seu personagem. Agora 15 anos depois não sei se a imagem que carrego se faz real ou se era a projeção de uma menina quebrada que por medo de sentir - qual realmente sentiu forte demais por um dia - quebrou um coração. Não acreditava no amor e se ele não existia, era só um espaço tempo para me machucar mais, ainda mais a 987 quilômetros. Meu único pedido de desculpas aqui presente, que no clichê mais malfadado pude afirmar “o problema não é você, sou eu”.

Como em um mundo pairado nas histórias, meu segundo coração me chamou de Pandora. Foi assim que me apresentei sem nunca me apresentar. Ele brilhava demais em um mundo real que nunca me encantou. Mas o que via era muito raso perto da dimensão que é ser alguém e ele tinha os próprios caminhos e lutas a trilhar. Não sei quanto tempo durou, sei apenas que o medo de não ser suficiente me fez nunca sentir o gosto de um beijo em um show de rock pop dos anos dois mil e bolinha.  

Como um choque de realidade em personagens juvenis meu terceiro coração foi tão remédio quanto veneno. Fui entrega de corpo, mas não de alma. E o fato de não sair do meu mundo interno fechado e me fazer de bandeja foi motivo para eu virar um porta retrato atirado do 13° andar. Tal homem quis que carregasse esse fardo sozinha, mas da imagem distorcida no espelho já tinha carga demais para uma ainda recém vista mulher segurar e hoje eu só vejo o tempo demais que dei contra o de menos que me julgou oferecer.

Considerando a armadura envolvida no terceiro coração o quarto foi só uma imagem. É o único que não posso se quer encontrar. O idealismo de Platão que nunca soube da minha existência. O que não pode ser visto não pode ser julgado. Um rosto para imaginação. Algo tão tolo que só aparece aqui pela certeza de que se tivesse me aproximado nem se quer me lembraria mais agora dez anos depois.

Meu quinto coração é um erro ao som de Charlie Brown. Paixão desmedida e avassaladora. O ápice da razão apagada pela paixão. Foi conhecer alguém e nunca se mostrar. Foi não admitir estar repetindo os erros dos outros a ponto de nunca ser coragem para querer mais que alguns momentos roubados. Roubo parece a melhor definição. Roubei momentos de alguém. Mas todo roubo tem alguém lesado e nesse caso fui só eu. Fui pele, fui olhares, fui mãos dadas escondidas. Do esconderijo só me restou memórias que prefiro não tomar.

Meu sexto coração é gigante e já bate a quase oito anos. Era para ser brincadeira e virou aventura de vida. Uma resposta a uma prece que fiz sozinha no quarto trancado. Bem longe da perfeição encontra-se na rotina desafio e alimento em igual proporção. É ir além da paixão, do final do faz de conta. É como se após as cortinas abaixassem os bastidores criassem vida. E há vida, há amizade, há risadas e também defeitos. Eles brilham em neon por que no dia a dia criamos expectativas pesadas demais para outros ou nós vestirmos. Há certeza de mais tempo, de mais um dia. De novas fases e busca de encantos onde se faz o café coado.

Da descrença do amor eu me consumi em 6 crenças até então. Cada qual me levou onde estou pois não impediu que seguisse adiante, não como barreira ou algema, mas como sensação quente que sinto aquecer meus membros quando vou dormir.  Da energia recarregada em um abraço e do gosto de uma provocação desmedida sem medo de retaliação. Por mais que as inseguranças existam e sejam cachorros enormes, ele ainda escolhe me dar apoio.

Ando agora de mãos dadas seguindo meu caminho, já tão mais crente, pois no segundo que entendi que algo só acaba por que um dia existiu.  Não dar o nome a eles ou o crédito não impede de isso ter feito parte e queimado no meu peito quando se fez real, até mesmo quando nem se concretizou. De certa forma, é como se o único poema que sei de cor assinasse essa obra, que seja infinito enquanto dure. E duraram, duraram o suficiente para que eu pudesse acreditar. Não nos contos de fada, mas no que faz se faz o mundo continuar buscando, seguindo, procurando e, o Universo queira, achando por tempo suficiente para se fazer infinito.

asas no tênis

18 de agosto de 2022

Hoje eu não cedi a mim mesma. Eu explico, hoje eu voei.

Eu sempre caiu em metáforas, mas de forma clara eu corri. Poderia já falar que não foi uma corrida perfeita, não, fora a primeira volta nada saiu como o planejado. Mas eu corri. Você entende?
Cinco mil passos que eu poderia usar com desculpa não ter companhia. Cinco mil passos que o tornozelo doendo não foi uma mentira, mas também não foi justificativa. Cinco mil passos com medos no caminho, com reticências e com percepções externas. Cinco mil passos com fone embolado, blusa amarrada no meio do caminho e cadarço solto sem nó. Cinco mil passos que agora são suor escorrendo quente no meu rosto e no sorriso de ter conseguido. Sozinha e conseguido. Com medo e conseguido. 
Que cale se a voz comparativa na minha cabeça das grandes conquistas. Salve anjo caído, por um breve segundo, foram mais que cinco mil passos, foram asas.

Metaforicamente uma carta

10 de agosto de 2022


São só algumas palavras desconexas (e no primeiro parágrafo eu já me critico antes que outro o faça), mas quero tentar. O doce conjunto de palavras foi a forma que encontrou para visualizar um mundo além da sua forte dor, foi o encanto pelo que elas podiam criar que te deu força muitas vezes, e você precisava dela, dessa forca extra e está tudo bem.
Recorro a elas para agora fazer isso novamente. Não como o bote salva vidas, mas para te tirar do barco no fundo do oceano que te prendi.
Eu lembro de você chorando no quarto sozinha. Não sei sua idade, nem a ordem cronológica de todas as vezes que vieram depois disso. Mas me lembro de todas as vezes ter medo dessa sensação. Não de o que me fez chorar, mas de ser fraca por me importar a ponto de chorar.
Então sim, recordo do quente das lágrimas sobre a colcha, da angústia da garganta fechando, de achar que não valia a pena continuar. E toda vez que penso nisso sinto o mesmo desespero forte, não pelo que estava sofrendo, que em cada fase se misturou  em motivos que bloqueei, mas pelo sofrimento em si, de ser que nem elas.
Sempre achei essa minha maior fraqueza, o fato de sentir e ver e sentir novamente. Mas faz uma semana que a frase " a melancolia também pode ser bonita" fica vindo e voltando da minha cabeça. Eu sempre quis a beleza.
Óbvio que estou mexendo em um vespeiro de picadas doloridas, mas a necessidade de acreditar que o desconforto é passageiro novamente me consola.
Na realidade eu queria interferir no espaço tempo por um segundo e te pedir desculpas por todas as vezes que te cobrei demais, muito além do que conseguia lidar no momento. 
Eu sei que a eu de daqui a alguns anos deve querer fazer isso também com essa que te escreve hoje. Mas um passo de cada vez criança.
Hoje eu queria ser piedosa contigo. E você vai odiar essa palavra mais que tudo, ela é metade dos seus problemas. Há uma camada inteira na máscara que veste apenas para proteger seu ego. Então você não quer piedade, mesmo que isso significasse que pegariam mais leve contigo. Você só acreditou por muito tempo que só seria mais fácil se gostassem e acreditassem no que viam. Mas sinta ela em toda essência, eu sinto muito por você. 
Aí nesse segundo você colocou um ar auto suficiente no rosto e bradou a sete ventos "vejam, eu estou ótima, não há motivo para isso". Você não estava. Você não está.
Confessar isso ainda pesa. Mas fica mais fácil com o passar do tempo. Então é esse pequeno e leve e frágil "mais fácil" que gostaria que enxergasse.
Não é muita coisa, eu admito, mas alcancei algumas vitórias em te mostrar alguns segundos a luz do dia. Te protegi tanto e tantas vezes que você ficou ali presa, sozinha, assustada. O barco afundou, mas você estava segura no quarto.
Eu venho tentado mergulhar nesse oceano a algum tempo para te resgatar. Mas na verdade a falta de ar sempre me faz ficar na margem.
Se eu te tirar daí, será que estará inteira para nadar comigo? Será que vai apenas me afundar mais do que as bóias pesadas que carrego nos pés?
Metáforas também são melancólicas. Elas facilitam o que quero dizer que pela força prática e direta eu não saberia. Vamos tentar: doeu, doeu muito e agora eu não sei se quer o motivo de tantas dores e nisso eu te condenei com o veredito de sofrer por qualquer coisa.
Desculpe, desculpe, mais metáforas. Mas não há forma mais objetiva do que falar em julgamento nesse caso. Eu te julguei, condenei e te prendi. 
Mas já são muitos anos e assassinos cruéis já estariam soltos nesse tempo, mas não você. Você ainda está no fundo do mar esperando ser solta, mas sem soltar um pio, é orgulhosa demais para pedir ajuda. E eu orgulhosa demais para te aceitar.
Hoje enquanto escrevia vejo que esse seu forte ímpeto de proteger sua imagem, sua vulnerabilidade, acabou por te tornar com  ar arrogante. Adivinha o que acontece com pessoas assim? Mais solidão. Desculpe trazer mais críticas, é o costume. 
Sabe qual a grande miséria de um auto crítico cruel consigo mesmo? Não há escapatória. Enquanto tento pegar mais leve e falar que está tudo bem ser como foi, em ter agido como ágil e vivido como viveu uma parte de mim berra que é uma grande balela. É parabéns, você está aí presa e agora vai acabar com todas nós.
É cruel. Você não culpa quem precisa ser salvo. Você só vai lá e salva, depois tenta arrumar os machucados do ato heróico. Eis o problema, nunca fui heroica.
Eu fugi e fugi de todas as situações que me levassem a bater de frente com meus medos e fraquezas. Continuaria fugindo para proteger a impressão que tinham de você.  Enquanto achassem que estava tudo bem parecia que estava mesmo. Não estava. Não está. Fugir nunca funcionou de verdade, só deixou passar para olhos desatentos, nunca os seus.
Me perdoa criança por te por aí, está escuro e sei que está com medo. Eu não faria isso com mais ninguém, mas por que faço contigo?
Eu quero te salvar, mas para isso precise que coloque a mão para fora.
Eu bati a porta, eu te deixei aí. Mas a chave não está trancada mais. Será que consegue nos ajudar?
No fim espero que você se salve a si mesma e me salve no final. Não quero afogar de novo, mas será justo te pedir ar?
Que grandes palavras encorajadores eu estou te dando, mas a porta está aberta e há uma curta, frágil e delicada esperança nisso. Sério, ela é minima e não quero que crie tantas expectativas, mas quero que tenha fé. Esse seria meu maior presente para ti.
Acho, espero que as próximas nós sejam mais livres. Espero que ela seja mais leve, que flutue e você vendo ela flutuar nas águas consiga sair daí. Já sinto o sol no rosto, ele pode ser quente, vem aqui nos ver da janela.

 
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