6 de novembro de 2011
Eu sempre imaginei o que seria ter meus vinte e um anos, como dizia Luka “Já se pode beber nos Estados Unidos, precisa significar alguma coisa”, mas meu amigo ruivo vivia em um mundo alheio da realidade, preenchido de otimismo por todos os poros que até um final feliz de filme americano se orgulharia. No entanto, era uma data curiosa, uma última data.
Há os aniversários de um ano, um grande acontecimento – menos para o bebê que nem imagina o que esta acontecendo a sua volta, depois as festinhas até os dez, onde a criança começa a perceber que não terá mais enfeites na parede, depois, logo em seguida, os de quinze com todo seu ritual ultrapassado. Ai então vem o de dezoito e pronto, quando você quase chegou a acreditar que era bom ser maior de idade, as contas chegam sem parar, as viagens para fora do país nunca acontecerão e a cada dia você só se sente mais velha. Mas, calma, essa sou eu falando, talvez sua vidinha seja bem mais feliz, ou talvez não, mas o que de fato importa é que eu realmente gostava da sonoridade dos vinte e um.Era a idade que minha mãe tinha quando eu nasci e não, eu realmente não estou com o instinto maternal acionado, mas imaginar aquela mulher estonteante abrindo a mão da sua vida por algo tão pequeno pode se tornar duas coisas: ou uma atitude heróica, ou apenas um ação patética. A analisei sempre pela segunda opção, confesso. Ela tinha tudo, como pode? Por amor? Por ele?
Eu sei que a bebida já esta teclando por mim e que eu apenas queria escrever um trecho filosófico sobre o que é ter vinte e um anos – os fiz nesta madrugada de 31 de outubro, sabia? – mas as luzes dos faróis dos carros que continuam a passar lá fora me impedem de raciocinar com precisão. A propósito, suponho que todo raciocínio sejam precisos, mas os meus não. Eles se embargam vertinosamente em direções opostas o tempo todo.
O moço de óculos redondos sempre dizia ser algo divertido, mas nem sei onde ele se encontra. Casado possivelmente, ele sempre pareceu o tipo de garoto que casa cedo.
_Mas eu tinha botas que iam até os joelhos, como podia casar? – Deixo essa mensagem na caixa postal do Eddie, ele não vai entender nada. Mas já viu alguém escutando as mensagens da caixa postal por aqui? Ele, no entanto, escutara e dirá que eu me martirizo igual uma atriz dos anos sessenta. Pensando bem, não! Essa sou eu falando, afinal sempre quis parecer com elas, intocáveis. Eu quase cheguei lá, eu juro. Era boa mesmo nisso! Colocava meu rimel preto nos cílios alongados e vestia uma camiseta surrada em cima do corpo em meu maior ar de desprezo pelos seres mortais, caminhava até um banco qualquer e lia por horas algum livro pesado. O engraçado era que "elas" que tinham os colares de pérolas! Aposto que a ruiva ganhou um ao completar quinze anos...
Santo Agostinho, mais uma vez as datas! O que me interessa se ela ganhou um maldito colar? E porque tenho que recordar que o que tive foi um anúncio que meu amado papai biológico estava solto? Tem vezes que me pergunto como alguém assim acha-se no direito de ser pai. Lembro que ele disse exatamente isso, “Eu sou seu pai, Ana, não pode negar.” Mas então a imagem daquela estranha me acusando de ser filha de um assassino me condiz a permissão ou o fato de ele apenas dizer isto para ter um lugar para dormir na época da condicional. Entretanto, mais intermináveis olhares, acusações e até pena me informam ser uma luta perdida. Posso o impedir de ficar, e assim o fiz, mas não posso alterar a minha estrutura genética.
Ai nesse momento novamente me vem a cabeça: ela escolheu isso? Ele já não era bom, então por quê? Todos afirmavam, todos já sabiam, mas ela simplesmente não pode pensar nisso?
Não que vá mudar nada, eu sei, mas uma resposta cairia bem. Carla sempre disse que é por isso que eu desistiria da faculdade de filosofia uma hora ou outra, que os pensadores se interessam mais pela pergunta do que pela resposta. Engraçado, eu sempre achei que ela estava errada, mas aqui estou eu, não é? Funcionaria de uma loja de roupas populares, bebendo uma cerveja barata e questionando o porque estar tão perdida aos vinte e um anos?
Leonardo, o homem que me criou assim que Tom foi preso, me disse que todos se perdem quando jovens, mas que também conseguem achar seu lugar de volta, se encontram ainda mais fortes. E assim questiono, quanta fortaleza alguém precisa?
Escuto o barulho da cama no andar de cima ranger como se rissem de minha melancolia alcoólica, e assovio sozinha ao jogar os cabelos negros e roxos para trás; amanhã eles vão é se torcer pelo meu sorriso de tão aberto que ele estará e invejaram minha doce felicidade de jovem solteira e independente da metrópole. Amanhã... Amanhã já terei vinte e um ano e um dia. É uma boa data também, presumo eu, cai na terça-feira e tem Almodavar estreando em algum cinema. Eddie vai ligar dizendo que eu não devia ter ficado sozinha, Luka vai resmungar alguns parabéns eufóricos e eu vou apenas sorrir e dizer que a data não tem importância. Pode ser que até mesmo eu esbarre naquele homem estranho mais uma vez, quem sabe? A questão é que eu preciso estar acordada ás seis da manhã para pegar o metro, melhor acabar com essa ladainha e ir dormir. Mas já passou da meia noite, eu tenho vinte e um anos e nada mudou. Por que? A resposta deve vir amanhã, no entanto algo como “Hogwarts não existe!” ou “contos de fadas são uma ilusão” são boas opções.