Balaio de Gatos

20 de dezembro de 2010

Não se podia ver o final da ladeira, apenas o cimento quente e gasoso do calor do asfalto e o reflexo que o céu azulado , intenso demais, causava nos pequeninos pedaços de caco de vidro jogados pela calçada. Ali, sem que nem ao menos percebesse as casas coloridas e simplórias que salpicavam o morro, se fez presente seus moradores, digo, seus reais moradores.


Era como um feitiço esquisito, murmurava a velhota da beira do portão, mas já era óbvio por toda a cidade que ali, muito mais do que o bairro de moradia de senhores respeitosos, mulheres batalhadoras e crianças atentadas, haviam os gatos. Olhos amarelos e de fendas que vêem tudo, contou a mesma senhora ao homem de terno negro e gravata afrouxada. Gravata tão cinza quanto o cimento quente do chão.

_Todos aqui tem gatos?

_Oh não, eles não tem donos. Vieram um ou dois do nada e como uma praga se espalharam por todo lugar.

_Todos de rua?

Era mais uma pergunta para si mesmo do que para a mulher, algo como uma questão retórica que era preenchida pela visão de alguns bichanos se mostrando prepotentes pelos vãos do portão, atrás dos arbustos e em cima de janelas e muros. Havia ainda uma imensidão a se subir, mas antes do cansaço precipitado, o que lhe vinha a mente eram aqueles gatos. E, muito mais, um em especial.

Era tão negro que chegava a brilhar sobre o sol matinal, além de pequeninas orelhas pontudas e dentes afiados. Parecia sorrir, pensou aturdido pelas idéias enquanto se colocava a subir novamente. A senhora continuou a fita-lo como um mau agouro, e, no entanto, o gato apenas continuava ali umas três pernadas de distância dele, rindo.

Um tom de desagrado brotou nele então, afinal, quem era aquele gato? Apenas um gato de rua pulguento. Gatos como os de sua avó que o arranhavam todo quando ele queria pega-los durante as tardes de verão. Verão quente e forte como aquele.

Resmungou, deveria ser o calor que lhe colocavam idéias amalucadas na sua cabeça, idéias que lhe recordavam momentos que era passado e nada mais.

Tirou os olhos do gato e como se este não gostasse da falta de atenção, sumiu como em vulto por entre os jardins queimados da redondeza. Redondeza que agora vibrava ao som de um samba meloso e baixinho, de alguma das casas de gente em vez de bicho, completou enquanto afrouxava mais a gravata, trocava a maleta de mãos e xingava baixinho o mecânico que o enrolava desde semana passada com a tal história do carburador. Dentro de sua proteção de metal não sentiria o calor, não chegaria na cliente com aquela expressão de quem estivera a ultima hora na esteira de uma academia e muito menos teria de enfrentar aqueles malditos olhos de gatos sobre si. Olhos que pareciam dizer alguma coisa... Mas que tudo que escutou foi os gritos da velha já uns bons metros abaixo com uma vassoura tentando tirar um dos peludos de sua lixeira.

_Não há nada para você aqui, nada mesmo. Volta para sua bruxa, volta já.

Bruxa? Feitiços? Gatos? Outubro já havia passado, talvez devessem avisar a pobre velhota, ironizou mentalmente. Agora faltava pouco, pode olhar a ponta do morro mais a frente, e como uma recepção avistou uma garotinha menor que suas pernas. Era bom ver algo naquele lugar além de gatos e assombrações de quase um século que acreditavam em superstições.

_Quem procura?

A voz era macia e acolhedora, tão acolhedora quanto os olhos e cabelos lisos e escorregadios.

_Senhora Millos, conhece mocinha?

Parou alguns segundos enquanto com seu vestidinho de chita ela o rodeava segurando a boneca de lã. O olhou com certa curiosidade, uma perspicácia de quem se pergunta se vale a pena dividir suas informações. Gatos que se alisam em suas pernas atrás de uma tigela de leite ou carinhos afetuosos.

_Arram.

Estava inquieto e irritado, como podia estar assim por causa de uma garotinha tão encantadora?Obrigou-se a se por na mesma altura que ela e sorrir.

_Me disseram que fica na ponta do morro, em uma casa de madeira. Verdade?

_Arram.

Odiava frases monossilábicas, odiava aqueles gatos que continuavam a surgir sobre muros e janelas.

_Pode me levar ate lá? Que tal?

Seja alguém melhor, seja alguém melhor. Era isto que Eloisa sempre dizia a ele. Alguém a quem ela pudesse acreditar ser plenamente fiel, amigo e disposto a salva-la se assim precisasse. Retirou isto da mente quando a garotinha pos suas mãos macias sobre as suas e começou a correr o resto da ladeira. Faltava pouco, confortou-se ao sentir os sapatos apertando seus dedos, a gravata enroscando sem eu pescoço e aquele calor queimando sua pele.

Em menos de poucos instantes avistou uma casa comum, daquelas em que você duvida que há alguém que more ali devido a falta de qualquer personalidade e advento pessoal, daquelas que ele nunca acreditaria ter qualquer sinal de vida se não fosse exatamente de lá que saísse a musica que ouvira a pouco.

_É ai?

Arram, podia jurar que era isto que ela diria, mas não, a garota apenas abriu o pequeno portão de ferro enferrujado e começou a cantarolar a mesma melodia e refrões de “Millos, Millos” alto o bastante em sua voz infantil.

_O que há?

Saiu dali uma mulher de menos de trinta anos, tinha cabelos tão lisos quanto os da garota mas totalmente negros e brilhantes, além de um sorriso tão branco e risonho que apenas lhe escapou quando os olhos dele passearam sobre as curvas que se remechiam em breve quebradas ao se dirigir a porta.

_Senhora Millos? Sou o advogado da empresa de seu falecido marido e gostaria de dar uma palavrinha com a senhora.

Não sabia de onde havia tirado forças para falar e muito menos para terminar a frase antes de acrescentar que o que ele desejava iam além de uma simples conversa. Controlou o corpo já quente pelo sol e sorriu de forma profissional, pelo menos acreditava que assim pareceria.

_ Claro. Quer entrar?

A pergunta parecia mais intencional do que uma cortesia, mas não, era apenas efeito de sua imaginação cansada das brigas de Eloisa e de suas incansáveis cobranças. Mas então por que a criança o olhava com uma atenção peculiar? Um copo de água, era tudo que precisava, a viúva assinaria os papéis e ele partiria pelo morro abaixo. Papéis estes que a deixariam livre novamente, confessou uma parte de sua mente muito consciente daquele corpo esguio que mostrava a ele o caminho para a sala. Sala estranha, pensou enquanto inspecionava as almofadas espalhadas.

_Então, o que eu posso fazer por você?

Ela havia se virado repentinamente para ele, encostada no corrimão de uma escada, com um sorriso tentador e unhas que prometiam mais do que Eloisa jamais propusera a seu desejado melhor amigo. Subiu novamente ao rosto dela, olhos maquiados de negros destacavam o tom mel neles, até mesmo, ousava imaginar sobre a luz dos vitrais, que fossem de fato amarelos.

Assim, puxando o resto da gravata que sobrava em seu pescoço e pedindo um humilde copo de água, ele se aproximou o bastante para torcer que sua recatada namorada encontrasse um homem digno de a te-la, alguém fiel, companheiro e disposto a levar o jornal pela manhã até sua cama. Pois ele, sim, podia ver agora claramente os olhos dela, não passava de mais um gato da ladeira sem fim que pediria socorro assim que chegasse outro desavisado bom moço, sem ter certeza se de fato queria outra vida além de seus pelos cinzas, vadiagem pela rua e os atenciosos carinhos de Millos no fim do morro.

Tic Tac

4 de dezembro de 2010

O ano passou como minutos longos, mas apenas minutos. Quem dera poder parar o tempo, mas não posso, então o que fazer? Assusta-me a dimensão que ele acomete, o que tanto se transforma, modifica e em um turbilhão constante se amplifica. Grito até perder a voz para que uma paz sublime, sublime paz, se apodere dele e que a sensação de que é sempre tarde demais se mingúe o bastante para que não nos faça erguer uma muralha contra o passado e nem um santuário com o futuro. Apenas ali, apenas agora, mas que olhe só, já passou.

 
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