Montro violeta

27 de outubro de 2010







Vejo curtas unhas escuras, cadernos preenchidos de uma letra que não é minha e uma imagem distorcida com a pele bronzeada demais. A boca tem um gosto amargo, e desta vez é no sentido denotativo. Mas isto, de ser paladar e não palavras, não ameniza o efeito.
O vicio bateu de novo, tenho vontade de marcar no diário, registrando os pensamentos que se adicionam em imagens negativas - quem me dera não ver o copo vazio - e assim, me resta apenas a certeza que haverá, novamente, mais escuras olheiras no espelho pela manhã.
A noite ainda não se foi, me tortura os pensamentos inquietos, calando a tentativa de vislumbrar o efeito de manhãs primaveris, afinal, o monstro embaixo da cama ainda me espera. E eles, talvez agora penetrados nos poros do travesseiro, já não tão macio como foi um dia, discutiram da certeza de que eu cometerei os mesmos erros e as mesmas falhas promessas.
Fecho os olhos e os ouvidos, o gosto ainda não some e o efeito ainda se repercute por todo corpo, possivelmente o que os saudáveis e sensatos homens chamam de morte gradual e lenta, entretanto não demora tanto assim. Ainda hoje, se os ponteiros não preencherem o doze rápido demais, vou descobrir, melhor, redescobrir, sem tanta novidade, que o medo que a esperança parta é imensa, e o medo que ela já tenha partido no primeiro instante é ainda maior.
Calo os múrmuros internos que assolam, mas não as ásperas mãos que tateiam o que elas tanto condenam.
Aos poucos tudo vai fazendo teu efeito, inclusive o bom senso de sobrevivência que implora para que me perdoe, mais uma vez, eternamente mais uma vez. Teria que antes perdoar os monstros, o do armário, do debaixo da cama e até os do porão... mas antes disso, deixa eu tentar mais uma vez, mais um dia. Riu descrente da proposta, eles também.

Diálogo

11 de outubro de 2010

_Há quantos anos está casada, tia?
_Faz 38 anos já.
_Esta decido, é o único casal que eu realmente acredito.
_Não pode ser assim, tem de acreditar no amor.
_Tarde demais.

Contadora de histórias

8 de outubro de 2010

Não escrevia bem. Era péssima em rascunhar textos bonitos, piadas bem montadas ou dissertações argumentativas que persuadissem o leitor, assim, apenas se contentava em contar histórias subjetivas e criar projetos inacabáveis.


Falava por personagens e estes tentavam explicar cada ponto da confusão de sentimentos, razões, intrigas, existencialismos e políticas que governam a mente humana. Humana? Considerou-se uma e escreveu sobre eles, só não podia imaginar que soubesse tão pouco, ou que, mesmo assim, em desilusões e até incredulidades, ela ainda quisesse poder confiar cegamente neles.

Mais fácil seria viver apenas nas ficções, no entanto, nelas não existiam a realidade inexorável de uma vida acontecendo, seja do mendigo doutor do viaduto central ou da velhinha amarga que perdeu o homem que amava.

Assim, ela realmente não conhece os homens e as mulheres, não entendo para onde vão e nem por que aqui estão, na verdade, em sua brincadeira de antropóloga, perdida entre ficções e realidades, decidiu que uma vida inteira não é suficiente para saber de nada e que tão pouco ira desistir. porém, não importa, afinal, acima de tudo, ela apenas conta histórias...

 
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