24 de junho de 2010
Senti aquele desritmo insuportável mais uma vez. Esqueci de tudo, de todos, hipocrisias e platonismo e recordei daqueles lábios, daquelas mãos, daquele corpo.
Quis ser gentil, plausível no que deveria ou não dizer, encantadoramente atraente e até, ouso confessar, amável. Esqueci das amarguras e do ceticismo, e quis ser perfeita mais uma vez. Quis não ser eu mesma.
Ele cruzou as fronteiras de volta, sem avisos, de improviso solene. Era o protagonista, e eu, figurante que, internamente, amava e odiava isto. Ou melhor, orgulhava-se disso naquele instante, afinal, os olhos dele me viam momentaneamente, mais uma vez... Era o bastante por um mundo de invisibilidade, era o bastante para mim, lá.
Assim, sem donzela a ser salva me prontifiquei a pedir ajuda, mas a que? Por quê? Tudo ao fim se tornava ele, o gentil nobre cavaleiro em armadura reluzente que parecia, agora, ao avistar bem e com o coração voltando a compartilhar o ritmo entre ventrículos, átrios e artérias, que por fim, o brilho era apenas intenso o suficiente para me cegar, mas não pra reluzir a imagem que eu mesma via, que, por exclusividade, não refletia.
Retomei o roteiro na mão e caminhei ponderadamente a sua frente sem grande entusiasmo. A mocinha logo surgiu e ele se encantou. Querendo fechar a mente, me equivoquei, pronunciei glamurias internas e tropecei na minha própria emoção. Ela, mesmo ignorada por tanto tempo existia. No entanto, ao perceber que a dor por fim parecia mais real do que as ditas amorosas sobre meu ser inatingivelmente previsível, encarei o ser que me confundia a vista. O tal dito era invisível como eu em certas cenas, ou pior, visível ao ódio de alguns em muitas outras, e ainda assim, impossível de ser tirado de todo enredo. Ele me viu e eu, despreparada, fui questionada se podia o enxergar ou precisava de óculos.
