Viena , 16 de setembro de 1864.
Manuele Lacorte – Cravo,
Foi tudo rápido demais. Em um instante tinha você em meus braços; a única que permiti que estivesse deitada ao meu lado depois de uma noite, e a única que saiu ás pressas por que quis; no outro momento, recebia um convite de casamento pela parte de Daniel. No entanto, criei coragem e apenas sorri ao ver um anjo de fogo atravessar a igreja. Parecia com um sabia? Em seus cabelos de carmim sobre a pele translúcida. Mas no final, mesmo em sua dita independência e liberdade, foi isso que sempre quis, não é? É como se eu esperasse que as respostas saiam do papel, mas elas nunca virão. E é por isto que questiono minha religião, ou melhor, a falta dela. O que fez comigo?
Éramos amigos, os três, e o próprio uso do verbo no passado me dói em uma parte que eu nem sabia possuir. Mas éramos os melhores, e você a única que não me julgava e estava sempre ali, rindo das minhas aventuras tolas. Talvez eu sempre soubesse de seu dito “sentimento maior” por ele do que por mim; notei isso quando era um menino e depois quando me tornei homem. O incrível é que, até esta infeliz noite, eu nunca me importei. Fingirei que não me importo até me convencer, mas por hoje, sabendo que nos últimos tempos deve ter quisto apagar-me de tuas memórias, não posso.
Estava ali em todos seus momentos, vi a garota se transformar pouco a pouco, lhe incentivei a liberdade que tanto procurou, me esforcei para anima-la e para rir sempre, mesmo sabendo o quanto era difícil para você. Agüentei o humor de Daniel quando brigava contigo e escutei lamentações de ambos. Talvez fosse inconsciente naquela época, mas adorei um briga que tiveram quando adolescentes infantis: foram longos meses sem se falarem, lembra? Daniel passava todos os dias em minha casa ou nas minhas farras. Porém, não era pela companhia dele que me acalentava uma indecorosa satisfação, e sim pela falta da dele na sua vida.
Então virou uma lady, uma dama da alta sociedade a quem todos invejavam, inclusive eu, ás escuras, sem nem perceber.
Criticava junto com Daniel todos que se aproximavam de ti, e como era o que mais estive por perto naquela época do seu suposto noivado, tive o direito de querer matar aquele que se aproximou tanto de ti. Horas, nem me recordo mais o nome dele. Mas então você soube do namoro de Daniel e vi que pouco a pouco até seu noivado sumir. Sabe, incrivelmente, fiquei feliz: as coisas iam voltar ao normal. Eu nunca havia confiado em ninguém, mas nos dois eu podia confiar sempre.
Cuidava de você em tudo, não é? E sempre cuidaria.
Escutava coisas que nem Daniel sabia quando éramos jovens, afinal, ele se distanciou e me deixou mais perto de ti. Fui a seus espetáculos e aplaudi seus passos, via uma estrela nascer. Você amava tanto a dança e eu amava tanto vê-la dançar. Meu pai dizia que era a única ligação com a arte que eu tinha... Estava certo, a partir de hoje, se eu sobreviver a esta noite; consideravelmente pior que a do seu casamento; suponho que odiarei qualquer espetáculo existente desta medíocre dança.
Não foi ela que te tirou de mim, foi você mesma que escolheu entrar naquele maldito navio, mas sempre que ver aqueles passos vou lembrar como você os fazia, como você deslizava pelo palco e sonhava pisar em nuvens e como, mal posso escrever isto, você nunca mais vai fazer.
È inevitável pensar o que teria ou não acontecido se eu tivesse ido atrás de ti,. Sei que deveria ter feito, sei que fui fraco ao sumir, mas estava tão assustado. Mas as idéias já perderam a coerência e a própria idéia desta carta já é uma insanidade, ou que tudo já esta misturado o bastante para sentir qualquer coisa, mas me obrigo a escrever agora: Sabia, que foi a melhor época da minha vida nesta cidade de Viena? Os deslizes, as escapadas de tia Josephine, os jantares, os espetáculos e sua alegria... Todavia tinhamos que voltar e assim que o fizemos percebi como ele sentiu sua falta e com dor, algo que eu odiava sentir, o incentivei a se aproximar de ti, pedir desculpas. Sabia que, acima de tudo, você ficaria feliz. Ele o fez e no final estavam no altar.
Irônico, não? Eu fui o padrinho dele. E nem imagino quantos ossos ele me quebraria se soubesse o que fiz contigo antes dele. Me perdoe o gênero canalha, sabe que não consigo controlar. E ele nunca saberia e nem poderia saber também o que eu queria fazer comigo mesmo quando você disse aquele sim. Acho que algo patético dentro de mim esperava que você olhasse para mim no altar e berrasse um não. Patético, você nunca faria isso, sempre o amou.
Sou acostumado a errar, mas o único que me arrependerei foi por não ter te tirado daquele navio. Ter berrado o que eu queria dizer e implorar para que ficasse. Você não ficaria, eu sei... Mas eu teria feito algo e agora, quando as noticia chegaram, eu poderia simplesmente chorar por sua perda e não por não tentar impedi-la de ir, a torcer para ficar aqui, comigo. Ah, eu pensei que teria uma outra chance de te ver, apenas isto me bastaria.
Voltaríamos a algum ponto antes de tudo e poderia vê-la sorrir, e dançar, e viver. Mas não... Tiraram-te para sempre de mim.
Acuso Deus com todas as letras, mas ele nada me responde. Temo que ele esteja rindo de mim lá em cima. Ao seu lado? Por que Manuela?
Eu suportaria te ver feliz ao lado dele, talvez até fosse feliz novamente em meus casos de libertinagem por ai e esqueceria de que apenas nos teus braços me fiz completo. Ele era como meu irmão e você a minha vida. Estaria bem, se mesmo que naquele final de mundo você se encontrasse bem, mas não, você partiu. Como ousou me deixar assim?
Como o mundo ousou rir tanto de mim a ponto de deixar que todos meus cuidados contigo durante toda uma vida acabassem no mar desta forma?
Não sei se não cometeria todos os meus erros novamente, nem mesmo sei se os corrigirei, mas sei que por um instante em uma futurologia de algo que nunca existirá, eu te cuidaria para sempre, te amaria e ficaria ao seu lado.
Não culpo Daniel por isto, espero que um dia ele consiga concertar seu coração o bastante para refazer a vida dele, mas pouco conseguiria olhar para ele agora. A dor nos une, mas ele ao menos te teve, te ouviu dizer que o amava. Odeio este sentimento mesquinho que me alucina. Odeio por que não estar aqui me dizendo que tudo ficara bem com seu ímpeto desastrado e equivocado.
Assim, guardo todos os dias que tivemos e apenas esta afronta a Deus, ele não podia ter feito isto. Aceito meus erros, mas não o Dele.
Escuto você me condenar por blasfemar o santo nome. O mesmo sotaque, o mesmo cantinho dos lábios se estreitando no lado esquerdo e o mesmo parecer educado de quem crê em algo que não se pode ver.Eu acreditava em algo, mas isto era você.
Se a razão me voltar, eu talvez queime esta carta, mas por hoje me basta terminá-la e esperar que do nada brote sua argumentação tão bem elaborada. Sua confirmação de que é tudo um engano absurdo e que sempre estará aqui. Mas nada acontece... Deste modo, apenas calo as palavras que sempre serão só pra ti em meu peito.
Te amo,
Jack