RPG, uma vida.

31 de agosto de 2010

Depois de quase oito anos de idas e voltas neste mundo denominado de RPG (ou Fake, ou qualquer outra coisa), o botão deletar foi apertado... Novamente. Despedidas a meu russo, saúdo vendo-o partir. Penso: deveriam tê-lo avisado para vir mais cedo, talvez anos atrás quando me diziam que era desperdício de criatividade e eu prontamente negava, no furor da adolescência de morrer por uma causa que não pedia vidas; ou talvez, ouso repetir o termo e deixar o texto com vocabulário pobre (como meu professor de redação do cursinho tanto dizia e diz), não fosse ainda o bastante para mantê-lo, o russo, com vida. Mas em uma maré de história inventadas que deve residir em minha alma, ele possivelmente persista mais alguns meses ou anos.


Absolutamente, não sei mais quantos personagens criei ou quantos foram recriados (em recorde a pequena Pandora que acabou por denominar este blog fracassado), quantos turnos enormes ou pequenos ( e broxantes) escrevi ou, até mesmo, quantos sentimentos esmagadores ou inúteis obtive. Entretanto, sei que, mesmo hoje, onde não me imagino voltando, o defenderia, este mundo ficticio, com uma garra que, atualmente, defendo poucas coisas na vida.

Analisando este passado, sei que errei em várias dimensões, muito além de uma gramática errônea – persistente até hoje; mas em me perder completamente no limite entre o real e o imaginário. Sim, irão me dizer que todos os escritores perderam este limite no exato momento em que sentiram o gosto da criação de uma única frase, pode ser que sim, mas não imagino alguém tão próximo deste limite do que as pessoas que conheci ali. É incrível, um simples jogo em uma rede de relacionamentos real em que une a maior quantidade de pessoas que gostam de escrever, ler e imaginar, e, no entanto, fui percebendo aos poucos, em muitas conversas fora dos denominados turnos, também a maior quantidade de pessoas com histórias incríveis, emocionantes e até sufocantes que conheço. É claro que não são em todos os casos, mas vi fugas angustiadas naquele mundo, onde, pela primeira e única vez, a vida estava sob seu controle. E este controle criativo, como qualquer outra droga, vicia. Clinicas de reabilitação para ex-rpgistas, eu sugeriria aos políticos, assim, possivelmente, conseguissem meu voto.

Mas, pensaras então, qual é o lado positivo disto? Eu, pessoalmente, responderia: minha vida. Fuga da realidade faz mal? Absolutamente. Encarar ela demais, para alguém que não agüenta mais fazer isto? É fatal. Sei que continuo a respirar, sei que aos onze anos quando entrei não lia um milésimo do que leio hoje, sei que nunca havia imaginado que um dia amaria tanto escrever que tudo que eu pudesse aspirar é que meus devaneios se unissem em palavras e frases e criassem vida e sei, mais do que tudo, a quantidade de pessoas que conheci e como cada uma teve seu papel na minha vida.

Afinal, naquela linha onde todos se perderam, houve amores, ódios, lágrimas e risos que evoluíram muito além de personagens em uma página na internet ou conversas no MSN. Aprendi que não podia confiar em todos e que eu mesma não era tão confiável, que idade não tem nada haver com inteligência, maturidade ou companheirismo, que amor a distância existe, mas que muito melhor é ele perto de você. Que, quanto mais se foge, um dia se depara com a realidade e que, no entanto, a imaginação é o lugar com mais liberdade existente.

Tenho marcas que levo comigo para onde for, entre elas, até mesmo remorsos e lições benéficas. Amei pessoas que não existiam, mas também outras que mostraram o melhor de mim. Aprendi como o ser humano pode ser cruel, mas também como ele pode querer fazer de tudo para você apenas sorrir... Aprendi que minha vida é tomada por incertezas, mas que em uma das solucionadas, é que eu não seria nada do que sou, positiva ou negativamente, sem o tal RPG.

Assim, sem a absoluta de que nunca voltarei (com um vicio nada se tem de concreto), mas a plena consciência do que o RPG representou para mim, me despeço, muito mais do que do meu russo – que quem sabe se torne um personagem de mais um projeto de livro como Guties, Anita e outros que seguiram este rumo – mas de uma parte do meu passado que pretendo não enterrar, nem me prender como fiz tantas vezes, simplesmente deixar lá, em sua função de passado, como lembranças e até saudades de memórias fora do comum.




                                                                   *Ao trio, Pierre, Diogo e Henry, que eu nunca saberei se existiu, mas em magoas e, antigamente, risadas ficarão marcados em mim;


                                                                   *A Loreta que talvez seja meu maior caso de amor e ódio, sem qualquer motivo racional, que acima de tudo, é uma escritora formidável e portadora de uma imaginação invejável;


                                                                  *Ao player de Jason Forrester, ao qual me encantei platonicamente e que, junto a Ana, estiveram em quase todas as voltas da Pandora;
                                                                
                                                                  *A própria Ana, a quem eu espero que minhas manias de perseguições estejam erradas, mas que é um rpgista profissional e estupenda;


                                                                  * A Luiz Fernando, meu primeiro namorado, incrivelmente conhecido pelo RPG. (E o qual acho que sempre deverei desculpas, por tantas crises que ele nada tinha culpa);


                                                                  * Ao Fabio, que há poucos anos atrás me ensinou o que é paixão e o que ela pode fazer de e por você;


                                                                 * A Rafael Trinta, meu último amigo conhecido pelo RPG, até então, e que me faz rir barbáries, em uma época de poucos risos e muito estudo;


                                                                *A tantos outros que jogaram comigo e dividiram comigo seus personagens e também suas vidas e;


                                                                * A Beatriz Pilton, milhões de vezes mais que o Edward da minha Guties, mas uma pessoa que me ensinou nestes anos o que é amizade, o que é amor ao que se faz e, até mesmo, quem sou eu, na vida real. Obrigada “Lola”.



O russo

24 de agosto de 2010

_Mikhail Ker.. Kera... Keres.. – Ela ainda segurava suas mãos quando começou a rir, seu toque era suave. - Mikhail? Gosto deste nome, gosto mesmo!
Os olhos castanhos se fecharam um pouquinho e os lábios vermelhos se entreabriram como se saboreasse cada palavra que saia de sua boca. Havia um furinho também, os olhos dele grudaram nele... Era na bochecha e até delicado, mas surgia magicamente cada vez que ela sorria. Ela sorria o tempo todo, foi descobrindo aos poucos. Os cabelos platinados também riram para ele naquele instante, onde pragmáticos ventos o tomaram a luz do entardecer de Moscou, como se guizos o tomassem na peripécia: “Esta perdido Kerenski, perdi-i-ido”.

(Trechinho de mais um projeto qualquer.)

August, Agosto.

1 de agosto de 2010

Encaro a pasta de dente amassada sobre a pia de gotículas barulhentas e irritantes, ignoro a falta da escova azul junto da vermelha e também a imagem no espelho, não gosto das olheiras que estão ali e nem de outros sentimentos em algum lugar perto do pulmão. Sigo em direção ao escritório, mais uma vez.


A papelada domina o ambiente e há um cheiro estranho no ar, pode ser algum box de comida chinesa perdido por ai, mas não tenho paciência para procurá-lo agora. Entretanto, tenho para salivar a espera das oito e quinze da noite, quando, sem peso na consciência, eu poderei ligar para o restaurante de novo. Acho que a atendente começa a simpatizar-se comigo, quem sabe não peço aulas de chinês via telefone qualquer dia desses.

Giro a cadeira desgastada até mim e sento-me ali, observo que daquele ângulo a quantidade de relatórios se multiplica, e o incrível é que, de certa forma, eu não me importo. O trabalho ajudará... Os terapeutas ocupacionais sempre dizem isto.

A tela do computador se abre na frente dos meus olhos e obrigo-me a pegar os óculos. Não sei onde eles estão... Reclamo pra planta do canto da sala. Ela tem traços brancos nas folhas, chega a ser bonito, penso enquanto volto a olhar para o computador.

Passa-se algumas horas e meus olhos começam a lacrimejar, a perna direita que estava embaixo da perna começa a arder também. Então, esqueço-me por alguns segundos e os olhos caem para o canto da tela; a hora não me surpreende, mas a data ri descaradamente de mim.

Agosto, agosto, agosto... Arrepios percorrem involuntariamente sobre meu corpo.

Junho já se foi com as incertezas e tomadas de decisões para os próximos e finitos seis meses; julho com o nervosismo de nada ter mudado junto ás férias que não aconteceram, e ali, tão vil e mascarado, surge agosto.

Sei que havia me segurado para não ir até a geladeira vazia e arrancar a folhinha de julho presa na sua porta quando resolvi levantar; que estou tentando não esperar por novas tragédias enquanto me preencho de trabalho por cada poro. Então, como em um segundo particular, me permito respirar e homenagear cada ser que amei e implorar uma proteção para eles: talvez egoísmo, talvez amor ao próximo.

A janela sobe imperativa no mesmo canto que a data está, meu patrão.

_Sei que é domingo, mas pode vir aqui hoje? Preciso da sua ajuda...

Ficarei presa até o fim da noite, chegarei cansada o suficiente para apenas conversar com a Senhora Ling e desabar em meus lençóis amarelos.

_Estou indo para aí.

Digito rapidamente e vou em direção ao quarto com a certeza de que nem me lembrarei de respirar ao chegar lá, nem mesmo de lembrar que hoje já é agosto. E assim, os terapeutas estarão, finalmente, certos.

 
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