August, Agosto.

1 de agosto de 2010

Encaro a pasta de dente amassada sobre a pia de gotículas barulhentas e irritantes, ignoro a falta da escova azul junto da vermelha e também a imagem no espelho, não gosto das olheiras que estão ali e nem de outros sentimentos em algum lugar perto do pulmão. Sigo em direção ao escritório, mais uma vez.


A papelada domina o ambiente e há um cheiro estranho no ar, pode ser algum box de comida chinesa perdido por ai, mas não tenho paciência para procurá-lo agora. Entretanto, tenho para salivar a espera das oito e quinze da noite, quando, sem peso na consciência, eu poderei ligar para o restaurante de novo. Acho que a atendente começa a simpatizar-se comigo, quem sabe não peço aulas de chinês via telefone qualquer dia desses.

Giro a cadeira desgastada até mim e sento-me ali, observo que daquele ângulo a quantidade de relatórios se multiplica, e o incrível é que, de certa forma, eu não me importo. O trabalho ajudará... Os terapeutas ocupacionais sempre dizem isto.

A tela do computador se abre na frente dos meus olhos e obrigo-me a pegar os óculos. Não sei onde eles estão... Reclamo pra planta do canto da sala. Ela tem traços brancos nas folhas, chega a ser bonito, penso enquanto volto a olhar para o computador.

Passa-se algumas horas e meus olhos começam a lacrimejar, a perna direita que estava embaixo da perna começa a arder também. Então, esqueço-me por alguns segundos e os olhos caem para o canto da tela; a hora não me surpreende, mas a data ri descaradamente de mim.

Agosto, agosto, agosto... Arrepios percorrem involuntariamente sobre meu corpo.

Junho já se foi com as incertezas e tomadas de decisões para os próximos e finitos seis meses; julho com o nervosismo de nada ter mudado junto ás férias que não aconteceram, e ali, tão vil e mascarado, surge agosto.

Sei que havia me segurado para não ir até a geladeira vazia e arrancar a folhinha de julho presa na sua porta quando resolvi levantar; que estou tentando não esperar por novas tragédias enquanto me preencho de trabalho por cada poro. Então, como em um segundo particular, me permito respirar e homenagear cada ser que amei e implorar uma proteção para eles: talvez egoísmo, talvez amor ao próximo.

A janela sobe imperativa no mesmo canto que a data está, meu patrão.

_Sei que é domingo, mas pode vir aqui hoje? Preciso da sua ajuda...

Ficarei presa até o fim da noite, chegarei cansada o suficiente para apenas conversar com a Senhora Ling e desabar em meus lençóis amarelos.

_Estou indo para aí.

Digito rapidamente e vou em direção ao quarto com a certeza de que nem me lembrarei de respirar ao chegar lá, nem mesmo de lembrar que hoje já é agosto. E assim, os terapeutas estarão, finalmente, certos.

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