História de um sofá

27 de março de 2010

É difícil não perceber seu sorriso, do outro lado da sala. Estou sentada da escrivaninha e você no sofá surrado que sua mãe deu, noto ele – o sorriso. As covinhas no canto, os lábios um pouco mais para um dos lados; normalmente o esquerdo e o tom quase brilhoso que seus dentes demonstram naquele instante. Você meche no cabelo, encara o livro de Machado como se fosse jogo fácil mais uma vez, não resisto... Troco de lado da cadeira, levanto os pés; sentando-me neles; e tento me focar no trabalho. O Senhor Kyoto quer o relatório para amanhã as sete, sabia?


Então você desliza pelo encosto do sofá, puxa as almofadas coloridas que eu comprei para contrastar com o bege dele, e as coloca sobre a cabeça. Os cabelos meio compridos brincam com as ‘lantejoulas chamativas’, como você disse quando apareci com elas. Sempre amei estas almofadas!

Você me olha, percebe que te encaro. Não tento disfarçar, passei disto na terceira semana de namoro. Acho que tem olhos em cada poro de seu corpo.

_O que foi?

_Não consigo escrever o relatório.

Você fecha o livro marcando a página com uma dobra mal feita – Ah, se fosse meus livros, penso por um momento, mas ai vem você com outro sorriso. Este é pior; é mais descarado, solto, cruelmente fascinante.

_Então vem aqui comigo...

Olho o sofá, o tapete fofo e o tempo ameno que envolve a todos desta estação; certamente não a mim.

_Não posso.

Você não desfaz o sorriso, apenas finge que volta a abrir o livro; não rele nem mesmo uma frase.

_Já que você diz.

Encaro a tela do computador, encaro você. Dedilho uma ou duas frases no papel, algo sobre manufaturas e anseios internacionais. Não me importo mais com eles, apenas os meus.

Refaço na mente os ultimo quatro anos, você ainda tem o mesmo sorriso. Escrevo um pouco mais, números que retiro da papeladas ao meu lado. Um arrepio me percorre a nuca.

Como um ninja samurai eu nem vi você se aproximar, esta atrás de mim. Brinca com meu pescoço, isto é vilania.

_Para com isso...

_Não estou fazendo nada.

Desta vez é o ar falso inocente. Suas sobrancelhas se erguem um pouco e franze a testa em uma risada juvenil. O que posso fazer? Quase como uma americana, ignoro Kyoto, planos internacionais, manufaturas e superfaturas, puxo sua mão para mim e beijo aqueles lábios, aquele sorriso, com mesmo gosto de primeiro beijo roubado que me deu.

_Obliqua e dissimulada?

_Não, só a parte de olhos de ressaca mesmo.

Você levanta facilmente da cadeira, coloco as mãos sobre seu pescoço enquanto me leva até o sofá sua mãe deu, não vou lembrar disso nos próximos minutos. Nem de qualquer outra coisa. Amanhã, as sete, invento alguma desculpa, Senhor Kyoto acreditara.

As escuras

10 de março de 2010

Cansou-se da espera sem fim, pegou o telefone e digitou os oito números do papel amarelado. Ele não existia.


Não era, como ousou supor o gato, um caso de bar, que havia passado o numero equivocado para fugir da dona de dedos carinhosos.

Era um amigo, um daqueles dos melhores.

Os que nas manhãs primaveris e também as de inverno sabia a coisa certa a não se dizer e, ou, que subitamente poderia fazer uma reação acontecer dentro das borboletas vermelhas. Não foi o bastante. O numero não existia, não mais.


Recordou de todos os momentos, de todas promessas mudas de continuar a se verem após o grau ser colado em risadas escandalizadas.

Deveria ter se casado, mudado para uma casa de três quartos e suíte, comprado um cachorro para brincar com as crianças que viriam, ou talvez já tenham vindo, e mudado o telefone para uma linha a qual atualmente deveria ter um caixa postal cantada anunciando os comercias de margarina enjoativos da Tv como realidade de poucos. Ele merecia isto.

Merecia também uma mulher bela que deveria ter se formado na faculdade com notas excepcionais e admiradores conformados pela disputa desleal que haviam se envolvido. Uma que compraria torta de kiwi que ele tanta gostava em plena terça feira de comida requentada e que aceitaria as lagrimas o pedido que ele teria feito na frente de todos os reservados amigos que não se encontrava.

Em um carro do ano ele teria buscado as passagens aéreas de primeira classe para uma viagem corriqueira no Porto, onde o português ajudaria a não se perderem e as gorjetas não eram obrigatórias, e visitariam todos os mil lugares escolhidos a dedo no jornal até que os pés pequeninos dela doessem nos sapatos de salto alto. Então ele riria, pegaria a grande bolsa das mãos dela que ele citaria como um buraco negro e seguiriam calmamente até sua pequena e confortável pousada para um por de sol ao gosto de vinho barato. Talvez não, mais, fossem a Paris e ele compraria aqueles globos de vidro com a replica da torre para ela. Ela sorria contente, ele se diria o homem mais feliz.

Sim, certamente era isto.

Quem sabe se desse bem com os sogros, comprasse um charuto no nascimento do primeiro filho e embarcasse em uma viagem pelas nações distantes quando fossem velhinhos levando livros a todos... Oh sim, ele poderia fazer isto.

Então, o telefone que ainda estava em sua mão, berrou.

_Esta pronta? Passo ai em poucos minutos.

Não haveria jeito, mais um encontro no bar, as escuras, arranjado por sua colega de trabalho de dentes brancos e lábios vermelhos demais. O amigo do colegial, aquele que pensou que a salvaria de mais um dia como todos os outros da sua atual vida de adulta e jovem descompromissada não estava ali, estava em seus devaneios com três filhos e muito bem acompanhado.

Cruzou o alpendre da sala vazia e de aluguel acessível, viu o diploma da universidade que nunca praticou em cima da lareira sempre desligada e calçou os sapatos lindos, mas apertados demais para seus pés numero 38. Se olhou no espelho da sala e saiu pelo corredor mal pintado do prédio de apartamentos todos iguais o seu.

Encontrou a colega que lhe deu dois beijos nas bochechas e disse algo como "é hoje" bem baixinho para o porteiro, que certamente sabia de tudo, não escutar.

Entraram no carro, partiram rumo ao bar de sempre. No centro da cidade, perto do karaokê que nunca iria e da doceria que era melhor não visitar. Cumprimentaram o barman, que já as conhecia tão bem que já arrumavam o mesmo pedido de bebidas fracas para o inicio da noite e pensava nos que daria para elas experimentarem no final.

A mulher deu um sorriso escarlate, o que fez seu interior se mexer bruscamente. Não era um bom sinal, não podia ser.

Um dvd e sorvete eram o melhor para hoje, quem sabe fotos do que havia sido o colegial e do primeiro beijo do baile de formaturas. Havia sido bom, tão bom que ela havia imaginado o rosto de seu velho amigo naquele novo pretendente de calças jeans surradas.

Não, não bom o bastante para isto, nunca mais visto ele. Ou não até hoje, pois era ele ali.

Ria, ria muito.

A mulher que pouco entendia tentava fazer as apresentações, já imaginava o fim trágico da noite, talvez os drinques mais fortes chegassem antes da hora.

_Já nos conhecemos.

_Da onde?

_Colegial.

Respondeu a dona do gato que a estas horas dormia tranqüilo sobre o sofá.

_Bons tempos.

_É, bons tempos.

Um olhar compreendido, mais risadas. O comercial de margarina trocava de mocinha, pensou inabalável.

_Tentei te ligar estes dias. - 'Tipo hoje, meia hora atrás', completou mentalmente.

_Cortaram a linha, meu amigo esqueceu de pagar a conta.

As bochechas dele ficaram vermelhas. Vermelhas deveriam estar as dela, pensou subitamente. Sem mulher, sem três filhos e o cachorro. Apenas um colega de quarto que esquecia de pagar as contas e fazia ele dizer isto a uma garota, já não tão garota, que conhecia - ou reconhecia - em um encontro as escuras. No final das contas, refletiu vendo como a camiseta de mangas longas caia tão bem nele ainda, preferia assim.

 
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