
"Era tudo novo demais, quando dei por mim, la estava eu de novo e de novo, na mesma loja, fazendo as mesmas coisas, sim não comprava nada, mas utilizava todos os meios possíveis e impossíveis, sim escutava música. Mal acreditava naquela loja, abrira quando eu mais precisava, ficava a um quarteirão de minha casa, e se soubessem onde eu moro, poderiam dizer que era muito perto. Moro em um condomínio, é este é fechado e cheio de casas enormes e sem graça, ok algumas até tem, afinal é incrível poder pular o muro de algumas casas de verão e ver imensas piscinas bem cuidada, sabendo que ninguém vai chegar ou me pegar, ou até mesmo a aventura, de repente o portão central se abrir, e ter que mesmo apenas de biquíni e segurando algum vestido ou peça nas mãos correr para não ser pega ou ver os velhos ricaços, apenas mandarem seus seguranças soltarem os cachorros. Mas ali estava eu, na seção de músicas clássicas, cada dia da semana, era uma sessão nova a ser visitada, hoje queria Beethoven, Frank Sinatra ou qualquer outra coisa, que me deixasse amplamente em paz, que me fizesse esquecer tudo e de todos, apenas escutar aquelas pequenas notas que saiam daquele fone preso a meu ouvido.
A senhora Anny, dona da loja se acostumará com minha presença e nem se quer mais solta olhares furtivos e pesados contra mim, como no começo por eu num levar nem se quer um imã de um ídolo pop qualquer como muitos adolescentes faziam quando entravam naquela loja.
Acho que até gostava de me ter por ali, meu lado nada modesto diz que não sou tão má compania assim, ainda mais para ela, qual fica sentada atrás daquele caixa o dia inteiro, vendo adolescentes ignorando as outras seções que segundo ela, são as mais importantes, adultos querendo ser jovens e dando uma de adolescentes, outros perdidos, em seu típico gosto banal e sem graça, ela odiava sertanejo e coisas assim, falava que só os vendia, pois eram os adultos sem gosto algum que compravam mais CDs, deveria discordar, as vezes acho que acabei me dedicando tanto a música, sendo sua ouvinte, que a maioria dos estilos me pareciam incríveis. Tinha também os que simplesmente escutavam musicas e iam embora sem nada levar, como eu, não sei, mas assim, parecia ter mais graça. Mas para eles comentários eram feitos ou na maioria da vezes a simples frase “Eu preciso comer também, sabiam?”. Eu ria o que mais poderia fazer? Sabia que aquilo era um brincadeira de minha já “amiga”, qual não trocávamos muitas palavras, algumas de vez em quando sim, mas na maioria das vezes, apenas algumas mímicas; quando eu ia a tal seção e silenciosamente apenas com um olhar, ela sabia que eu queria uma sugestão e ela mostrava com os dedos a fila de CDs que eu deveria ir e quantos CDs passar até achar o que me faria bem naquele dia.
Acho eu que ela já sabia da maioria dos meus problemas e que também, era apenas com a musica que eu me reconfortava, e queria me dar algo antes nunca dado, atenção.
Mas naquele dia fora diferente, o rosto de Madame Anny estava contraído e sério como no começo de toda nossa história, relia um jornal, mas podia se nota que mesmo que se virasse ele de ponta cabeça ela nada perceberia, pois sua mente estava longe, quando no fundo daquela loja, a porta ressoou com o típico "crack" que eu estava acostumada a fazer e já tanto gostava de ouvir, ela pulara desconfortável e assustada, me soltar um olhar de ternura por um momento, como se não quisesse que eu estivesse ali para ouvir o que veria a seguir, realmente não deveria estar nos planos dela como metade das coisas aconteceram a seguir.
Por aquela porta entrou um senhor, já deveria ter seus quarenta anos de idade ou quem sabe até mais, vestia um terno preto impecável, e nas mãos uma maleta, típico empresário famoso com muito a se fazer, seu rosto parecia em tal frieza e dor, que eu realmente pensei em trocar de sessão de discos, precisava de algo mais vivo para me dar um pouco mais de luz, que com aquele jeito sério e apático, ele me tirara.
Ele encara a loja e logo depois madame Anny, ela com seu típico sotaque francês não desgastado com o tempo, e uma sobrancelha levantada. Parecia que o conhecia já, e que já esperava pelo pior, como se fosse sim, um belo senhor, mas ao seu olhar parecia uma pessoa nada agradável a vestes daquele terno.
_ Realmente não irá se arrepender Madame Swindoll, a loja parece entregue as moscas...
Sim por mais que estivesse perdida no mundo de Frank Sinatra naquele momento, o fato de ter tido problemas de fala quando pequena e audição me levaram, a saber, ler os lábios de outras pessoa, e realmente gostava cada vez menos daquele homem, e ao ver o início da conversa, meu dedo escorregou até o botão de volume, e logo Frank Sinatra parecia apenas murmúrios ao meu ouvido, e assim escutava a velha Madame Anny, encará-lo e engolir a seco em sua garganta, como em expressões populares poderiam dizer que “ela engolirá um sapo", apenas elevou a mão com um sinal de pouca relevância e saira de trás do seu típico caixa e sorrira forçadamente ao senhor.
_ Vamos logo com isto...
Ele levantara a maleta e ao abri-la podia se ver inúmeras notas, eu mesmo sendo criada em uma família com uma boa situação financeira, nunca tinha visto tanto dinheiro assim, a vista.
Ela olhou aquele dinheiro e logo fechou a maleta, pegara alguns papéis abaixo da mesa, e mais uma vez aquele olhar para mim, em nossas conversas mudas conseguia já entender os olhares dela e assim vi dentro de mim algo se perder.
_ A loja é sua senhor Clarmont... Ao fim dessa semana a loja estará fechada e assim, ela nunca mais se abrira e terás o terreno como sempre quis... Ela é sua.
Senti todos meus sentidos saírem de mim por um momento, ao mesmo tempo em que uma lagrima caia da face dela, caia da minha, ela perdera sua loja e eu a minha salvação, o meu amparo.
Levantei-me com tudo, tirando o fone de meu ouvido e o colocando meigamente a seu prendedor como fazia todos os dias, porém ao me levantara e caminhar até ela, dessa vez pegara um simples boton de um artista que nunca escutará e colocara o dinheiro acima do caixa. Seus olhos pareciam querer me pedir desculpas, porém via mais que isto neles, mas não conseguia decifrar, porém ao sair meus olhos se encontraram com os dele, sim, vi algo que não conseguia enxergar naquele momento, no alto daqueles olhos negros, vi uma alma perdida inutilmente, era como se visse meus próprios olhos, não os meus são azuis acinzentados, não falo de tonalidade, falo de alma, afinal, olhos são a porta da alma não?
Ele também pareceu notar algo, mas não, nenhum dos dois falaram, e eu ali fechei a porta com grande força saindo rua a fora, onde tudo parecia pior do que antes, carros empilhados em transito para ir até praia, porém a buzinas e crianças jogando latinhas de refrigerante na rua, um cachorro correndo atrás de um gato, e um temporal se formando, o que causava resmungos piores nas pessoas ali dentro daquele carros, com vidros fechados enquanto algumas crianças a frente do sinal de transito faziam malabarismo e pediam um mínimo de atenção, mesmo que estes estivessem perdidos naquele carro de vidros escuros, com seu ar condicionado e com a cabeça em algum leilão ou ação da bolsa de valores, ou simplesmente com medo, de que uma daquelas crianças lhe tirassem uma arma da pequenina bolinha e pronto, acabasse tudo ali, mas nada aconteceu e ao escutar o barulho e uma construção que ali ao lado se fazia, comecei a correr, corria e corria, quando finalmente cheguei à portaria daquele condomínio que a tanto me prendia, ouvi um "ola" de um dos porteiros, mas nem dei muita atenção, simplesmente soltei um muxoxo, algo inaudível e corri ate os grandes portões de minha casa.
Como sempre fazia alguns empregados a arrumavam e Liah queria me dizer algo, mas não lhe dei atenção e corri ao meu quarto e ali com aquele boton nas mãos o joguei em um canto qualquer na minha escrivaninha e me pus ali pegando uma pequenina boneca de pano velha, sim tudo estava mudando, o mundo parecia que cada vez virava mais real. Estava ficando velha logo daqui alguns dias a escola acabaria, mas não aquilo no momento não me importava, só ali com mina pequena boneca de pano entre um quarto fantasiado para um princesa que nunca existira, estava eu, com alguns discos que meus pais em vez de atenção tentava me comprar com aquilo, eles mais uma daqueles adultos inúteis que tanto madame Anny falava, e pensando na minha vida ridícula e de tantas coisas que ficara sabendo, acabei adormecendo, mas fora entre sonos nebulosos que acabei despertando e relembrando a ultima coisa que neles vi, eram olhos... Olhos negros."