25 de fevereiro de 2011
Um toque, um gesto e um rebaixar de olhos foram o suficiente. A timidez vinda dela era palpável, mas um magnetismo envolvendo-os era mais. Tão sólido quanto os anos que vieram depois.
Casaram-se em maio, dito mês das noivas, de 1976, em uma cerimônia de 15 minutos. Havia o padre, o pai dele e mais uma testemunha que encontraram entre as devotas carmelitas da comunidade, mas foi o bastante.
Não conseguiram ter filhos de sangue, no entanto, isso não a impediu de criar dois respeitáveis senhorzinhos de calças curtas e nem que um círculo de pessoas estivesse no leito dela em 2008 quando a idade, por fim, começava a falar em tom agudo. Foram nestes meses no cenário branco que ele, toda noite, lá pelas vinte horas, quando o horário de visita terminava, mandava que suas crianças - homens já com barba e filhos crescidos - fossem para as ditas casas e se encaminhava até a cama dela. Local este em que as dores da costa devido a má posição não impediam de ele segurar sua mão até a manhã nascer. Ela sempre teve medo de escuro, repetia a si mesmo, mas sabia que na verdade quem o tinha, era ele: medo do escuro que seria a vida dele se ela partisse.
Não era comodidade, nem mesmo uma obrigação perante um juiz, a atração apaziguara com os anos e até os netos já estavam quase criados, mas não era nada disso, apenas que após tantos desde que a observara naquele salão, algo se modificou sem ao menos escolha, com a mesma velocidade dos cílios delas aos se fecharem sobre a bochecha carmim, algo que nunca poderia explicar, mas que a pôs ao seu lado no espaço da vida e depois, dia a dia, alterou o sentido de vida para tudo que havia ocorrido com eles. Sua vida havia sido com ela, sua vida era ela.
Assim, em 2 de outubro de 2009, não foi surpresa para ninguém que, um mês e meio após a morte dela, ele também partisse. Enquanto se dividiam as vertentes entre que o ocorrido era por amor ou apenas coincidência, Fellipe, hoje sem as calças curtas, achou a última anotação no caderno de notas do pai, feita a um pouco mais de dez dias: "Anda escuro demais", o que o homem que havia aprendido tudo que sabia com o casal que o tirara da rua, apenas completou:
