
"O trem parou, as pessoas agilmente já desciam, pessoas com seus chapeis elegantes, o meu? A ele era comprado em uma dessas lojinhas qualquer de um shopping lotado no dias das mães no ano passado em um cidadezinha ao lado de Paris, onde o presente fora dado para mim, numa época onde aquilo poderia ser considerado moda para pessoas populares, mas não se iludam, não foi isso que me atraiu nele, foi o fato de ser extremamente parecido com um personagem de filme de terror, fiquei fascinada e comprei na hora, mas não vou vos enganar, não é do pobre chapéu de abas elevadas que venho lhes falar, foi daquele sentimento naquele dia em que descia com minhas calças surradas e segurando aquela velha mala de coro entre os dedos com mais roupas do que imaginei que poderiam caber ali.
Senti o ar entrar satisfatoriamente em meus pulmões como uma droga, não era ele em si, pelo contrario, parecia cheirar a flores, era primavera, não deveria me assustar, mas tão acostumada quanto estava com os típicos dias nublados por ondas de fumaças tóxicas saídas de traseiras de veículos ou bocas de monstros vestidos de ternos elegantes em momentos estressantes, me deixara um tanto desacostumada com tudo aquilo. Respirei, respirei como se cada instante ali me trouxesse uma recordação, um primeiro dia na escola, um banho de chuva, um caminhar de dedos entrelaçados no velho amigo de infância, o caminhar sobre a areia fina da praia, um deslizar de carrinho de rolimã, um assistir de por do sol, um primeiro beijo, um primeiro olhar... Tudo repassado mentalmente em minha cabeça, até mesmo a primeira fuga e a primeira vez que voltei, hoje no caso, neste dia de primavera cheirando a margaridas e que esta me fazendo quase sentir o peito explodir .
Encarei o local onde todos pareciam ocupados demais com suas próprias vidas, turistas... O relógio acima batia seis da tarde, conseguiria ver o grande pro do sol ainda hoje? Pensei em cada vez que me perdia ai olhando aquele céu que via agora enquanto me dirigia com meu pai até o carro, guiado por Robert que apenas lançou um olhar educado, também não deveria estar feliz comigo ali, mas nunca desapontaria meu pai. Meu pai, era tão estranho, mesmo com as descobertas que foram reveladas, mesmo sabendo que ele não é geneticamente e biologicamente o portador deste titulo, nunca poderei ser mais grata a alguém e nunca poderei amar alguém mais do que o amo, o único que me conhece e sabe de todos os detalhes, talvez não os de relacionamentos anteriores, pais não são feitos para entenderem que as filhinhas cresceram, mas sei que estaria ao meu lado para qualquer meio e foi isto que fez eu seguir aquele caminho nas estradas esburacadas com os cabelos negros encostados no peito dele, estava com sono a viagem havia sido longa, mas não queria perder um mínimo segundo, cada detalhe, até mesmo cada arvore, me preenchiam.
Não poderia ficar la, apenas pegaríamos alguns papeis na antiga casa, pelo menos papai não a vendera quando “fugimos”, não sei se conseguiria ver o lugar em que vivi tantas coisas e que foi meu lar por tanto tempo nas mãos de outras pessoas, espero que quando tudo isto finalmente acabar papai consiga voltar a morar la e ter boas lembranças e reorganizar sua vida que eu tanto compliquei.
Chegamos, e meu coração parece que vai pular pela boca, como será que ele esta? Como será que ira me receber? Será que ainda se recorda de mim? Será que esta muito bravo? Será que se quer liga? Não sei as respostas, mas enquanto papai se dirigia a casa, caminhei até a velha casa vizinha que tanto fez parte de minha infância, vejo a mini garagem montada a frente, ele sempre gostara disso, será que estaria por la? Será que ele já sabia de tudo? Será que me olharia como todos vão me olhar? Não quero pensar nisto, quero apenas ve-lo, quero apenas ver que esta bem e sei que isto pode parecer patético, mas não vou prender a orgulhos bobos e medos tolos nesta parte de minha “Vida”.
Deslizo com os pés amedrontados por entre a grama, me aproximo aos poucos e escuto alguém falando atrás de mim, papai já me chamando para ir embora antes que atraíssemos mais a furia alheia, mas era tarde demais, ali a minha frente estava ele, com os mesmo jeito contente e com aquele brilho nos olhos, com os cabelos um pouco mais curtos do que recordava mas extremamente mais alto, com formas de homem, meu coração de dispara, os dedos dele deslizam sobre a pele alava de uma garota e aos poucos os lábios deles se tocam, ele a beija com todo sentimento que nunca vira ele beijar nenhuma garota tola que ja passara pela vida dele, que eu nem ligava confesso, nunca achei que fosse importante, mas é diferente dessa vez, ela é diferente, e ele também, pelo jeito quatro anos mudaram muitas coisas e já havia alguém no meu lugar, melhor assim, quis acreditar, ninguém sofreria porque ninguém se importaria, e pensar nesta forma trágica de adolescente me fez rir de mim mesma e de minha tristeza, acreditei fielmente no sentido da frase “rir para não chorar”, mas isto doía e eu num podia fazer nada, meu pai percebera era obvio e apenas me abraçou e antes que eles parassem e soltassem ou que Jake se quer percebesse que eu estive ali como ele tanto pediu nos primeiros meses em cartas que nunca respondi para tentar me proteger e a ele, para tentar fazer ele me esquecer... E ele esquecera, saira vitoriosa não? Conseguira minha meta, meu velho amigo de infância era apenas isto novamente, uma lembrança que eu deveria me contentar e quem sabe se aproximar como a velha amiga que ajuda como cupido nas horas vagas e estar sempre ali apoiando? Quem sabe assim pelo menos tivesse novamente um pouquinho de.. Não podia querer desejar mais não é? Me fechei no meu novo quarto assim que cheguei na tal casa nova, nem reparei na casa que papai escolhera, mas não importava, não passaria muito tempo ali e isto me dói por dentro, me doía saber que não estaria li nem mais em qualquer outro lugar, que não adiantava fugir disso,que pelo contrario isto apenas tirara parte de minha “vida” mais rápido, parte que eu gostaria que estivesse aqui comigo agora, me abraçando forte como só ele saberia fazer e dizendo que ficaria tudo bem, tola ilusão, melhor eu dormir agora não é? O dia foi cansativo e este remédio me deixou sonolenta, melhor deixar as coisas para o novo dia amanhã, afinal voltei a minha cidade agora, voltei ao meu lar... Voltei a minha vida pelo tempo que eu tiver, como ele próprio diria em sua ultima carta “Apenas volte logo pequeno ser feito de liberdade e coloque ordem nesta zorra que se tornou sua gaiola e ponha sentido nesta vida de céus intermináveis e coisas absurdas” e mais uma vez ele tava certo, estava de volta..."