Escravo Virtual

23 de setembro de 2010

As mãos suavam, a garganta estava bloqueada pela quantidade de ar puro em sua volta e os olhos pareciam irritados pelo intenso brilho do sol, sintomas estes que transformavam tudo em algo realmente assustador. Mas, a causa era, supostamente, simples: não podia ficar invisível para todos como no MSN ou, bloquear aquela garota que vinha falar com ele, tão naturalmente. Não estava pronto! Precisava de frases bem pensadas que os sites de mensagens, estas divertidas ou ousadas, poderiam lhe dar, da segurança de uma foto bem escolhida, e sem espinhas, colocada no avatar e, principalmente, do acesso de fuga que uma frase posterior poderia explicar tranquilamente com “Sinto muito, a net caiu”. Mas não deste modo, nunca deste modo.

No entanto, ela continuava a se aproximar com seus passos curtos, como se fosse fácil e óbvio. Porém, para ele, óbvio era o HTML da construção de um site, onde ao se por os dígitos corretos obtia-se o efeito desejado. Lógico, exato, sob seu controle. Encarou as pessoas a sua volta, e elas nem ao menos pareciam entender pelo que estava passando. Tudo tão complicado, por quê? Sem tempo para respostas em sites de pesquisa, ela já estava ali, encarando- o gentilmente.

_Como vai?

_Eu... – A mente havia se apagado como em uma falha no processador, porém ninguém parecia saber solucionar aquilo. Mas ele precisava, antes que tudo fosse formatado de vez. - ... Estou bem. Indo embora, na verdade. Nos falamos depois no MSN?

Assim, após e-mails trocados, partiu sem tanta certeza de que ela o adicionaria, mas, se o fizesse, ele estaria certo de que aquele site descoberto na semana passada lhe explicaria o que fazer. Lógico, exato, sob seu controle... Ou, pelo menos, no controle do seu computador.





                                                                       

Perfeccionismo surreal

22 de setembro de 2010

Passado o dia inteiro, os nervos ainda estavam dilacerados. Não podia explicar aquela sensação que a dominava, vez ou outra, ou todas.


Queria ser diferente, igual ao diferente que imaginava. Igual, céus, ao paradoxo da diferença que nem existia, pelo menos não física, não concreta e visível. Apenas ali, mas, depois, um tudo também.

Um cumulo, portanto, a tomou; e as orações alarmadas foram feitas durante a noite. Tinha tantos sonhos, tantos planos e perfeições a serem seguidos, e, logo a seguir, tantas decepções e incoerência no desenvolvimento central... Tão diferente do igual.

Rimas incoerentes dominou-a de súbito, como um pedido bem escutado e assim podia seguir dois caminhos, porém não gostava de nenhum. Nunca gostaria, a não ser se fosse o igual do diferente que imaginava... Apenas, imaginava.

Bilhetes

11 de setembro de 2010

Procurei por você, mas não estava em casa, de novo.
Talvez se lembre onde estão meus cds e livros e, assim, se der, poderia deixar com meu porteiro... Pois eu também não vou estar lá. Beijos.

Sabe de uma coisa, pedi o papel para deixar apenas um bilhete. Foi a sindica que me emprestou, é estranho, mas parece que no final das contas, ela não me odiava tanto quanto imaginávamos. Ofereceu a chave do seu apartamento com aquele tom de “Você estava sempre ai mesmo”, mas se tranqüilize, eu disse que era melhor não. Entretanto, eu realmente estive por aqui, não é? Estive nestes últimos três anos e cinco meses – acho que mais quinze dias também – passando por este hall de entrada de seu apartamento de classe média caro demais para mim, onde as madames com seus cachorrinhos me olham estranho por causa do meu cabelo colorido. Mas, não nos importávamos com isto, nem com os flagras do elevador até seu apartamento ou sua vizinha meio surda.
Acho que lembro até o primeiro dia quer cheguei aqui, estávamos saindo a doze dias e eu ainda estava assustada, como se, de repente, eu voltasse a ser uma menininha indo a casa do namorado pela primeira vez. De certa forma, eu realmente era; uma garota tola que se encantou de imediato com seu sorriso fácil e óculos de bom moço. Sabe, não era pra mim confessar isto agora, mas foi uma boa tolice.
Junto com as torradas da manhã, os seriados engraçados da tv e os filmes em alguns sábados a noite, e até mesmo, do teu ciúmes quando entravamos em um barzinho e alguém me reconhecia. Mas dançamos bem durante este tempo e tivemos boas noites, e sei que quando esta sensação estranha passar toda vez que vejo que não está no seu apartamento, e principalmente no meu em dias de chuva, poderemos até ser, clichês a parte, bons amigos.
Então, ignorando a Senhorita biceps definidos e qualquer coisa, apenas peço neste bilhete longo demais, que se for possível, deixe meus livros e cds, ou qualquer coisa que tenha esquecido por ai, com meu porteiro.
Obrigada, por tudo.
 Espero que você saiba quem...


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Romance de banca

6 de setembro de 2010

No sol poente li o ultimo parágrafo, era tolo, era aguado e, mesmo assim, trazia sensações boas e descomprometidas que José Saramago não me traria nestes momentos de calça de moletom e cabeça vazia. Mais um romance melado, racionalizou a critica, era algo que eu e muitas outras nunca teria, contra-atacou o pessimismo.


O mocinho era um anti-herói heróico, em todo seu maior porte físico hollywoodiano sem qualquer ajuda de academia ou trabalhos braçais, apenas um aspecto natural a que ele pouco se importava. Tinha um charme devastador e uma virilidade palpável. Além disso, era culto e admirava as coisas boas e belas da vida, inclusive, todas as mulheres. Mas, lógico, em sua história desprevenida, em algum momento, se deu conta que todas não eram suficientes e que um vazio pleno o atingia. Vazio este que começou a se completar quando a olhou pela primeira vez, em seu dito ódio explicito. Porque eles sempre se odeiam no inicio?

Pois bem, já ela, a mocinha, era linda como um “anjo azul”, além de extremamente inteligente, sagaz, independente e claro, preocupada com o bem estar de todo o mundo. Ela tem entre vinte e vinte e oito anos, com uma pele digna de comercial de cosméticos e de preferência com os cabelos loiros naturais caídos sobre os largos seios. Encontra-se com ele pelos mais variados motivos e, incrivelmente, seja em uma cidade interiorana ou no furor de Nova York, eles vão sempre se esbarrar e serem obrigados a relacionar-se.

No tumulto de acontecimentos que os cercam – e de preferência com as mais ousadas caricias - ele sempre ira se preocupar com o prazer dela ante o seu, se lhe agarrar vai ser porque ela quer (mesmo que secretamente), e, possivelmente, desde que a conheceu, deixara de sair com todas as amigas, colegas de trabalho ou cortesãs que o amavam.

A conquista, sempre o mais apreciável em qualquer relacionamento – real ou fictício – durará por toda trama, mesmo que não saibam o que estão fazendo ou dando importância devida a isto. Chegara o momento do ciúme, claro, ele percebera o quanto a quer e o quanto não consegue se ver em um futuro próximo e longínquo sem o barulho de sua risada, as conversas afiadas ou os momentos mais excitantes. Algum tempo sem contato, talvez, para que percebam a falta que o tal ser faz, mas ao contrário de uma realidade onde pessoas podem nunca mais se cruzarem, eles se encontram e em um simples olhar percebem que nada poderá os separar. Então, demasiada, ou completamente, cheia de clichês eles se declaram e em pouco tempo estarão casados, e nos casos mais comuns, com um bebe que incrivelmente nunca havia surgido nas milhares de escapulidas que tiveram em sua fase de ódio e paixão.

E são nestes finais, que as vezes, fico pensando, se não faltaria o termo “felizes para sempre” para terminar. Mas não, a idéia implícita de contos de fadas para adulto é melhor continuar assim, implícita. Onde possamos suspirar e continuemos a ler e desejar que algo assim acontecesse qualquer dia desses quando desarrumadas cruzarmos a esquina a caminho do trabalho, mesmo que não tenhamos um corpo perfeito com seios largos, cabelos naturalmente comportados ou nos preocupemos como se nada mais existisse além da pobre irmãzinha da neta da avó de uma amiga qualquer.

Mas bem, deixe para lá, ninguém precisa saber que muito além de alcoviteiras donas de casa também outras lêem estes livros e frustram-se com a realidade, a la estilo Luisa ou Madame Bovary. Ou, que ao contrário destas mocinhas, esperam sim encontrar alguém desde o começo da história ou em transformar aquela beldade grega que nunca pensou em olhar para você, como Dama conseguiu além de uma gostosa almôndega.

Possivelmente, não conseguiremos nenhuma destas histórias ou chegaremos perto destes mocinhos, porém, ignore os efeitos colaterais, deixe a perseguição daquele ser (des)encantado para outro dia e em seu moletom desgastado pegue aquele exemplar barato que comprou qualquer dia destes as escondidas, afinal, só por hoje, Machado de Assis agüenta.

 
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