No sol poente li o ultimo parágrafo, era tolo, era aguado e, mesmo assim, trazia sensações boas e descomprometidas que José Saramago não me traria nestes momentos de calça de moletom e cabeça vazia. Mais um romance melado, racionalizou a critica, era algo que eu e muitas outras nunca teria, contra-atacou o pessimismo.
O mocinho era um anti-herói heróico, em todo seu maior porte físico hollywoodiano sem qualquer ajuda de academia ou trabalhos braçais, apenas um aspecto natural a que ele pouco se importava. Tinha um charme devastador e uma virilidade palpável. Além disso, era culto e admirava as coisas boas e belas da vida, inclusive, todas as mulheres. Mas, lógico, em sua história desprevenida, em algum momento, se deu conta que todas não eram suficientes e que um vazio pleno o atingia. Vazio este que começou a se completar quando a olhou pela primeira vez, em seu dito ódio explicito. Porque eles sempre se odeiam no inicio?
Pois bem, já ela, a mocinha, era linda como um “anjo azul”, além de extremamente inteligente, sagaz, independente e claro, preocupada com o bem estar de todo o mundo. Ela tem entre vinte e vinte e oito anos, com uma pele digna de comercial de cosméticos e de preferência com os cabelos loiros naturais caídos sobre os largos seios. Encontra-se com ele pelos mais variados motivos e, incrivelmente, seja em uma cidade interiorana ou no furor de Nova York, eles vão sempre se esbarrar e serem obrigados a relacionar-se.
No tumulto de acontecimentos que os cercam – e de preferência com as mais ousadas caricias - ele sempre ira se preocupar com o prazer dela ante o seu, se lhe agarrar vai ser porque ela quer (mesmo que secretamente), e, possivelmente, desde que a conheceu, deixara de sair com todas as amigas, colegas de trabalho ou cortesãs que o amavam.
A conquista, sempre o mais apreciável em qualquer relacionamento – real ou fictício – durará por toda trama, mesmo que não saibam o que estão fazendo ou dando importância devida a isto. Chegara o momento do ciúme, claro, ele percebera o quanto a quer e o quanto não consegue se ver em um futuro próximo e longínquo sem o barulho de sua risada, as conversas afiadas ou os momentos mais excitantes. Algum tempo sem contato, talvez, para que percebam a falta que o tal ser faz, mas ao contrário de uma realidade onde pessoas podem nunca mais se cruzarem, eles se encontram e em um simples olhar percebem que nada poderá os separar. Então, demasiada, ou completamente, cheia de clichês eles se declaram e em pouco tempo estarão casados, e nos casos mais comuns, com um bebe que incrivelmente nunca havia surgido nas milhares de escapulidas que tiveram em sua fase de ódio e paixão.
E são nestes finais, que as vezes, fico pensando, se não faltaria o termo “felizes para sempre” para terminar. Mas não, a idéia implícita de contos de fadas para adulto é melhor continuar assim, implícita. Onde possamos suspirar e continuemos a ler e desejar que algo assim acontecesse qualquer dia desses quando desarrumadas cruzarmos a esquina a caminho do trabalho, mesmo que não tenhamos um corpo perfeito com seios largos, cabelos naturalmente comportados ou nos preocupemos como se nada mais existisse além da pobre irmãzinha da neta da avó de uma amiga qualquer.
Mas bem, deixe para lá, ninguém precisa saber que muito além de alcoviteiras donas de casa também outras lêem estes livros e frustram-se com a realidade, a la estilo Luisa ou Madame Bovary. Ou, que ao contrário destas mocinhas, esperam sim encontrar alguém desde o começo da história ou em transformar aquela beldade grega que nunca pensou em olhar para você, como Dama conseguiu além de uma gostosa almôndega.
Possivelmente, não conseguiremos nenhuma destas histórias ou chegaremos perto destes mocinhos, porém, ignore os efeitos colaterais, deixe a perseguição daquele ser (des)encantado para outro dia e em seu moletom desgastado pegue aquele exemplar barato que comprou qualquer dia destes as escondidas, afinal, só por hoje, Machado de Assis agüenta.