Monstro de lata

8 de abril de 2010

Pulo o buraco do canto esquerdo da calçada, cruzo a rua em seguida e pulo a poça de água parada desde o temporal de ante ontem. O ar deprimente ainda embala a todos, como se um cinza subumano pisasse em todos e os obrigasse a esconder as expressões, as vezes, no mínimo, expressivas. Procuro os passes na bagagem, em um mundo secreto das bolsas femininas não encontro nada, apenas uma fila disforme na frente do monstro de lata.


As ações são corriqueiras e fáceis de processar, as mesmas desde tão pouco que já são uma eternidade. Deslizo impaciente até a porta, pessoas cortam a fila e quando eu simplesmente deixo a senhora de cabelos e alma branca passar na minha frente me olham desagradados. Suspiro, cordialidade me surpreenderia.

Assim, como em um passe mágico de leitura mental as sete da manhã, um senhor se levanta na minha frente. “Sente-se senhora”, ela recusa e ele insiste. O primeiro sorriso do dia cinza é posto nos lábios dela, as sacolas deveriam realmente estar pesadas.

Fito o lado de fora, como prometido, surpreendida. Embalo ao som do aparelho pequeno na mão, qual nos últimos anos faz tudo; sigo as paisagens disformes, e como um tudo, aparentemente sem vida. Aparentemente. Há pessoas lá fora, inexpressivas, cinzas, apressadas, mas pessoas.

Volto para o ambiente apertado, um garoto me olha. Não tem nem mesmo cinco anos, percebo por seus olhos, são inocentemente infantis. Sorriu, a mãe gosta do gesto, envaidecida, foi ela que o fez. Esta feliz por isto, mesmo ali, com contas na mão e a responsabilidade de deixa-lo na creche antes que a patroa acorde. Sorriu mais uma vez, desta sem a percepção do garoto que continua me olhar e depois para os pés, os sapatos estão desamarrados. Não importa, constata ele, que decide ver as pessoas do ponto seguinte que começam a entrar.

Sons cansados são emitidos pela maioria, o homem de preto – totalmente de preto na pele branca demais – se destaca ao se levantar para uma senhora. Surpresa, ela não deveria julgar tantos os jovens de hoje em dia. Nem mesmo os que usam esmalte, ri secretamente para si. Amanhã ela se esquecerá disto, mas hoje é digno lembrar.

A enfermeira, antes sentada três bancos a frente, se levanta também; o senhor se recusa. Certamente ela ficou de pé tempo demais, antes disso. Mas ele também, setenta e poucos anos de pé, é bastante tempos.

Alguns descem nos pontos a frente e outras conversas baixas são ouvidas enquanto os freios subitamente são puxados. Carros malucos do lado de fora, exalta o motorista, responsável por sessenta e poucas vidas dentro do mostro de lata.

A moça de branco detalha sobre a senhora encontrada em um acidente na véspera, perdeu uma perna, chorou junto com ela. O pedreiro descarta a mochila pesada das costas e a coloca no chão, a menina queria passar, uma estudante que se surpreendi com a colocação avantajada na universidade desejada.

Cinco jovens descem no posto de gasolina, há mais quatro quarteirões para andar depois dali, talvez um refrigerante e risadas os ajudem a chegar lá. Ou talvez, a mulher de seios fartos o encontre antes. Sorrisos companheiros serão trocados, são homens, pensa ela envergonhada.

Mais dois pontos e eu descerei, mas antes, o menino. Onze anos, descobri semana passada. O pai, que não tem como o leva-lo na escola sem perder a hora faz o mesmo processo todos os dias; o leva até ali – uma arvore centenária na praça – e cumprimenta o motorista, é um acordo mudo de que ele ficara de olho no garoto até a penúltima parada, onde o menino desce. Sim, esta tudo certo por hoje, um beijo nos cabelos que já cresceram demais e o menino entra. Acena para o cobrador, o mesmo lhe dá a mão. Um gesto simples, não normal ali.

Um homem suspira resignado dois passos adiante, está atrasado, o patrão ranzinza não gosta disso. A perda do emprego significaria horas de trabalho extra e bicos forçados para conseguir sustentar a casa, ou a quase casa, que ele tem na comunidade distante dali. O patrão não entende isto em sua mansão de seis suítes desocupadas. Mas a mesma boa senhora que dei passagem sim, afinal, dá lugar para ele descer correndo em sua frente sem nada dizer, tem alma branca como pensei.

Levanto-me e vou até a porta, encaro alguns rostos, afinal, outros indivíduos passam para mim despercebidos, um pecado. Em seu silêncio pensam raridades e histórias para mim tão coloridas que quando desço dali a cinco minutos apenas cogito, são humanamente humanos, agradeço. Ai, de repente, mesmo com um caminho de ladrilhos cinzas e pessoas inexpressivas iguais e tão diferentes as outras vistas, cogito cores. Nada de cinza no meu mostro de lata.

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