Me conte um segredo. Fique comigo até eu dormir.

3 de fevereiro de 2010






Me conte um segredo. Fique comigo até eu dormir.

Enrolou-se como uma cobra em seu corpo. Ainda cheirava a álcool barato, ou não tão barato assim, se pensasse que foi com o whisky 50 anos. Dedilhava em seu ombro uma música que só ela escutava, devia ser Dont let me down, dos Beatles, se a conhecia bem. E a conhecia.
Pode tirar por alguns segundos o fardo da responsabilidade de estar cuidando de uma recém bêbada e analisar a situação um tanto quanto mais racionalmente. Era a mesma mulher que havia o insultado dos piores nomes na semana passada, fugido dele em pleno dia na estação principal e o acusado de ser um canalha usando vestes de príncipe encantado em um aniversário de quinze anos de sua prima de segundo grau. A mesma que se cansava facilmente de pessoas como de roupas, e que, genuinamente era conhecida por seu gênio em todos os cantos. Céus, ela trocava de sabores preferidos de sorvete a cada instante!
Como se sentisse os pensamentos do homem de barba rala, ela levou as mãos finas e morenas até os olhos. Os cutucavam como um bebe necessitado do afago materno para dormir. Ele sorriu.
_Me conte um segredo.
Haviam sido estas as palavras dela á três meses quando haviam se conhecido na porta do teatro popular da rua do porto. Ela com aquele cabelo curto demais e botas vermelhas, tinham amigos em comum. Mas, nenhum que soubesse explicar quem era ela com palavras certeiras. Ele ficou curioso.
_Odeio dança contemporânea, mesmo quando são gratuitas.
Declarou diante o cartaz da peça recentemente assistida. Não era o tipo de segredo que ela gostava, sabia ele.
_E o que faz aqui então?
A sobrancelha se ergueu como em passos ensaiados.
_Uma “amiga” é dançarina.
Havia encarado um ponto qualquer por uns míseros segundos. A palavra amiga não se encaixava para alguém com quem vinha saindo já a quase um ano. Era fantástica na cama, porém não o bastante para confessar isto ali, para a outra.
_Isto te torna um grande mentiroso.
Ela disse aquilo na maior naturalidade e tornou a sorrir enquanto se acomodava no encosto de em um banco de praça na frente do prédio datado em dois séculos, a seguiu.
_Por que? Por abdico dos meus gostos e dou o braço a torcer indo a um lugar que alguém querido gostaria que eu estivesse? – Forcei o palavreado rebuscado em um tom cínico e aparentemente engraçado, afinal, ela riu. Porém, não respondeu nada. Nada mesmo. _ Hei, me pediu um segredo, não algo para se julgar.
Mas nenhuma palavra, apenas aquele sorriso enquanto seguia com os olhos os poucos amigos em comum com conversas inúteis na calçada de ladrilhos. Alegrava-a aquela futilidade.
_Gostaria de dar uma volta?
Assim, do nada, ela perguntou. Olhava-o com orbes serenas, como se apenas tivesse registrado algo e agora estivesse pronta para mais informações. Ele se levantou, segurou a jaqueta jeans surrada demais e esperou que ela o seguisse.

Caminharam por quatro horas. Continuou caminhando ao lado dela nestes últimos três meses, mas até esta noite não havia descoberto nada de concreto e palpável. Apenas detalhes, gestos, sorrisos...
Inevitavelmente, agora, as descobertas não pareciam animadoras pra seres de gostos normais, no entanto ela apenas esticou o braço sobre seu pescoço e se aninhou com perfeição em seu colo.
_Fica comigo até eu dormir.
Não era uma pergunta. Era uma afirmação, um pedido certo em uma voz sonolenta. Ele nem ao menos pensou em negar.

Brincou com seu cabelo curto demais, encarou as botas vermelhas jogadas no armário entre outros sapatos altos demais e contou mais um segredo a ela que já deveria dormir em seus braços.
_Fico aqui até quando quiser.




 
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